O comércio automóvel em Portugal tem registado uma evolução positiva, particularmente no segmento dos automóveis ligeiros de passageiros novos, segundo dados da ACAP, que hoje revelou em conferência de imprensa. Outro dado importante, é que o parque continua a envelhecer ano após ano.
Em 2025, as matrículas atingiram valores próximos dos máximos registados antes da pandemia. Este crescimento reflete, em parte, a necessidade de renovação do parque automóvel, mas também uma maior oferta de veículos eletrificados e tecnologicamente mais atrativos para os consumidores.
Apesar deste crescimento, o mercado continua a ser fortemente influenciado pelo canal do aluguer e das frotas (RAC), cujo peso, embora relevante, tem vindo a diminuir ligeiramente em termos percentuais. Esta tendência sugere uma recuperação gradual do cliente particular, ainda que condicionada por fatores como o poder de compra, o acesso ao crédito e a incerteza económica.
Um dos fenómenos mais marcantes do mercado automóvel português é o crescimento expressivo das matrículas de veículos elétricos a bateria (BEV). Em 2025, Portugal registou o melhor ano de sempre neste segmento, com uma quota de mercado claramente acima da média da União Europeia. Este desempenho demonstra que o consumidor português está recetivo à mobilidade elétrica, sobretudo quando existem incentivos adequados, uma oferta diversificada e custos de utilização competitivos.
No entanto, esta evolução positiva contrasta com a realidade das infraestruturas de carregamento. Apesar do bom desempenho nas matrículas de veículos elétricos, Portugal continua abaixo da média europeia no número de pontos de carregamento por mil habitantes. Esta assimetria representa um risco para a continuidade do crescimento da mobilidade elétrica, podendo gerar constrangimentos à utilização quotidiana destes veículos, especialmente fora dos grandes centros urbanos.
A análise do mix energético das novas matrículas revela uma transição acelerada para energias alternativas. Em Portugal, a percentagem de veículos movidos a gasolina e gasóleo tem vindo a diminuir de forma consistente, sendo progressivamente substituída por veículos elétricos, híbridos e híbridos plug-in. Em 2025, cerca de dois terços das novas matrículas já correspondem a veículos com algum tipo de eletrificação, colocando Portugal entre os países mais avançados da União Europeia neste indicador.
Em contraste com o mercado de veículos novos, o segmento dos automóveis usados importados continua a ganhar peso de forma preocupante, segundo a ACAP. Em 2025, os usados importados representaram mais de metade das vendas de veículos novos, o que tem implicações diretas no envelhecimento do parque automóvel, nas emissões poluentes e na segurança rodoviária. Estes veículos apresentam, em média, uma idade significativamente superior e recorrem maioritariamente a tecnologias de combustão interna, muitas vezes menos eficientes e mais poluentes.
A idade média dos automóveis ligeiros de passageiros importados usados situa-se perto dos oito anos, com uma percentagem relevante de veículos com mais de dez anos. Este fenómeno contribui para o agravamento do envelhecimento do parque automóvel nacional, que já apresenta uma das idades médias mais elevadas da Europa.
O parque automóvel português continua, assim, a caracterizar-se por um elevado grau de envelhecimento. Em 2024, a idade média dos veículos ligeiros de passageiros ultrapassava os 14 anos, existindo cerca de 1,6 milhões de automóveis com mais de 20 anos em circulação. Esta realidade tem impactos diretos ao nível das emissões de CO₂, de óxidos de azoto e de partículas, bem como na sinistralidade rodoviária, diz a ACAP.
A distribuição do parque automóvel por tipo de energia evidencia ainda o peso dominante do gasóleo (mais de 50%), seguido da gasolina, enquanto os veículos elétricos e híbridos representam uma fatia ainda reduzida do total em circulação. Este desfasamento entre as novas matrículas e o parque existente demonstra que a transição energética, embora em curso, será necessariamente lenta sem medidas estruturais de aceleração da renovação do parque.
Neste contexto, torna-se evidente a necessidade de políticas públicas consistentes e previsíveis, que promovam a substituição de veículos antigos por modelos mais eficientes, seguros e ambientalmente sustentáveis, segundo informa a ACAP.
Propostas ACAP
A ACAP apresentou neste evento um conjunto de propostas que visam corrigir distorções e criar condições para uma mobilidade mais sustentável. Uma das medidas propostas incide sobre a obrigatoriedade de os veículos usados importados provenientes de outros Estados-Membros serem inscritos no Sistema Integrado de Registo Electrónico de Resíduos (SIRER). Esta medida visa garantir que todos os veículos introduzidos no mercado nacional contribuem de forma equitativa para os sistemas de gestão de resíduos, nomeadamente no que respeita a veículos em fim de vida, pneus e óleos usados.
A implementação desta obrigação permitiria reforçar a justiça fiscal e ambiental, assegurando que os custos associados ao tratamento de resíduos automóveis não recaem de forma desproporcionada sobre os veículos adquiridos no mercado nacional. Para que esta medida seja eficaz, torna-se essencial uma coordenação operacional entre as entidades responsáveis pela fiscalização, nomeadamente o IMT e a Autoridade Tributária.
Outro tema central abordado nesta conferência de imprensa diz respeito aos veículos híbridos plug-in (PHEV) e ao impacto do denominado “utility factor” no cálculo das emissões de CO₂. A alteração dos critérios técnicos de ensaio, prevista no regulamento europeu, tem consequências significativas na forma como as emissões destes veículos são homologadas, podendo resultar num aumento expressivo dos valores oficiais de CO₂, sem que exista uma alteração real no desempenho ambiental dos veículos.
Esta mudança metodológica teria implicações fiscais relevantes, uma vez que os critérios de tributação em Portugal estão fortemente associados aos valores homologados de emissões. O risco de penalização fiscal dos PHEV, decorrente apenas de uma alteração técnica no método de cálculo, poderia comprometer o papel destes veículos como tecnologia de transição energética.
Reconhecendo esta realidade, foi introduzida uma adaptação no enquadramento fiscal, ajustando os limites de emissões considerados para efeitos de classificação dos PHEV. Esta alteração permite mitigar impactos negativos no mercado e preservar a atratividade destes veículos, que continuam a desempenhar um papel importante na redução das emissões globais, sobretudo em contextos onde a eletrificação total ainda enfrenta limitações práticas.
Paralelamente, a redução das emissões de partículas surge como uma prioridade clara. A circulação de veículos sem filtros de partículas ou com sistemas de controlo de emissões inoperantes representa um problema sério de saúde pública. A proposta de equipar os centros de inspeção técnica com medidores de partículas constitui um passo fundamental para garantir um controlo mais eficaz das emissões reais dos veículos em circulação.
A introdução destes equipamentos permitirá identificar veículos que, apesar de cumprirem formalmente os requisitos de inspeção, emitem níveis excessivos de partículas finas. Esta medida reforça o papel das inspeções técnicas como instrumento de política ambiental, indo além da mera verificação administrativa e assumindo uma função ativa na proteção da saúde pública.
No domínio da fiscalidade, a questão da tributação autónoma aplicada aos veículos utilizados pelas empresas é igualmente relevante. Apesar dos compromissos assumidos no âmbito de acordos de valorização salarial e crescimento económico, a redução efetiva das taxas tem sido limitada. A ausência de uma redução mais significativa pode comprometer a renovação das frotas empresariais, atrasando a introdução de veículos mais eficientes e menos poluentes.
A proposta de uma redução progressiva e mais ambiciosa das taxas de tributação autónoma visa alinhar a fiscalidade com os objetivos ambientais e económicos, incentivando as empresas a investir em veículos mais modernos e sustentáveis.
Por fim, a criação da plataforma Recall constitui uma iniciativa de grande relevância no domínio da segurança rodoviária e da proteção do consumidor. Esta ferramenta permite aos proprietários de veículos verificar de forma simples e gratuita se o seu automóvel está abrangido por alguma campanha de chamada dos fabricantes, seja por motivos de segurança ou de emissões.
A baixa taxa de realização de campanhas de recall em Portugal representa um risco significativo, tanto para os condutores como para terceiros. Ao facilitar o acesso à informação e promover a reparação gratuita de veículos com defeitos identificados, esta plataforma contribui para a melhoria dos níveis de segurança e para a redução do risco associado à circulação de veículos com falhas técnicas.
Em síntese, as informações e propostas apresentadas evidenciam a necessidade de uma abordagem integrada à mobilidade em Portugal. A renovação do parque automóvel, a justiça fiscal, o controlo efetivo das emissões e a proteção da segurança dos utilizadores são dimensões interligadas, que exigem políticas coerentes, consistentes e orientadas para o longo prazo. Segundo a ACAP, só através desta visão integrada será possível assegurar uma transição sustentável, socialmente equilibrada e economicamente viável para o futuro da mobilidade.











