A descarbonização da indústria automóvel dependerá cada vez mais da integração entre o setor automóvel e o setor energético. Esta foi uma das principais mensagens deixadas por Vera Pinto Pereira, administradora da EDP, durante o Fórum AUTO’26, promovido pela ACAP, onde abordou a importância da energia na transformação da mobilidade.
Segundo a responsável, depois de mais de um século em que os setores automóvel e energético evoluíram de forma relativamente paralela, estamos a entrar numa fase em que “o sucesso de um depende cada vez mais do sucesso e da evolução do outro”.
Para a administradora da EDP, a transformação atualmente em curso vai muito além da simples substituição do motor de combustão por uma bateria. O desenvolvimento das baterias, o crescimento da infraestrutura de carregamento e a progressiva descarbonização da produção elétrica estão a criar um novo ecossistema em torno do veículo elétrico.
Portugal, segundo Vera Pinto Pereira, já não está apenas a preparar esta mudança, estando efetivamente a viver a transição. A responsável destacou o crescimento da infraestrutura pública de carregamento, a maior oferta de veículos elétricos, o aumento da autonomia e da velocidade de carregamento e uma produção elétrica com uma componente renovável cada vez mais significativa.
Um dos conceitos mais destacados na apresentação foi o do automóvel elétrico enquanto “bateria sobre rodas”. Na visão da EDP, o veículo deixará progressivamente de ser apenas um consumidor de eletricidade para passar também a constituir um ativo energético capaz de armazenar energia e, no futuro, disponibilizá-la a uma casa, a um edifício ou à própria rede elétrica.
Este potencial exigirá, contudo, veículos e carregadores compatíveis, interoperabilidade entre sistemas, enquadramento regulamentar adequado e soluções suficientemente simples para poderem ser utilizadas pelos consumidores.
Vera Pinto Pereira referiu mesmo estudos segundo os quais, até 2040, as baterias dos veículos elétricos poderão representar até 9% do fornecimento anual de eletricidade na Europa, transformando o parque automóvel elétrico num gigantesco sistema de armazenamento distribuído.
Descarbonização terá de abranger toda a cadeia automóvel
A administradora da EDP alertou, contudo, que a descarbonização da indústria automóvel não poderá ficar limitada à utilização dos veículos.
Fabricantes, fornecedores e restantes empresas da cadeia de valor terão de atuar também sobre o consumo energético das suas instalações, recorrendo, por exemplo, à produção solar, armazenamento em baterias e contratos de fornecimento de energia renovável de longo prazo.
A EDP trabalha já com empresas da cadeia automóvel como a Goodyear, Snop e Mercedes em soluções deste tipo, procurando simultaneamente reduzir a pegada ambiental, melhorar a eficiência energética e garantir maior previsibilidade dos custos da energia.
“A transição energética e a competitividade industrial deixaram de ser duas agendas diferentes. São precisamente a mesma agenda”, afirmou Vera Pinto Pereira, salientando que uma maior utilização de recursos renováveis produzidos localmente permite igualmente reduzir a exposição à volatilidade internacional dos preços do gás e dos combustíveis fósseis.
Frotas empresariais serão determinantes
Outra das áreas consideradas decisivas é a eletrificação das frotas empresariais, que representam uma parcela importante da procura de veículos elétricos em Portugal.
A responsável defendeu que o racional económico da eletrificação começa já a ser favorável em muitos perfis de utilização, sobretudo nas viaturas que percorrem quilometragens anuais mais elevadas, embora o custo e o local de carregamento continuem a ter um peso importante no custo total de utilização.
Além do impacto imediato nas emissões das empresas, a eletrificação das frotas poderá aumentar a utilização da infraestrutura de carregamento e, posteriormente, alimentar o mercado de veículos elétricos usados, tornando esta tecnologia acessível a um número mais alargado de consumidores.
A eletrificação dos veículos comerciais ligeiros, da logística urbana e, progressivamente, dos veículos pesados será outra das grandes áreas de desenvolvimento. Nestes segmentos, fatores como as rotas, quilometragens, tempos de paragem e custos energéticos tornam ainda mais evidente a necessidade de planear conjuntamente mobilidade e energia.
Carregamento inteligente prepara próxima fase
A EDP está igualmente a testar soluções de carregamento inteligente. Vera Pinto Pereira explicou que a empresa tem em curso um projeto piloto com milhares de clientes no qual o condutor liga o veículo quando chega a casa e indica a hora até à qual necessita que esteja carregado.
A gestão do carregamento é depois realizada automaticamente, procurando os períodos mais favoráveis em termos de carga da rede e preços de eletricidade. Segundo a administradora, os clientes abrangidos pelo projeto recebem um desconto de 15% no consumo destinado ao carregamento do automóvel.
Numa fase posterior, as baterias dos veículos poderão também fornecer energia às habitações e edifícios e, mais adiante, disponibilizar capacidade à própria rede elétrica, ajudando a equilibrar a produção e o consumo e facilitando a integração de uma maior quantidade de energia renovável.
Para Vera Pinto Pereira, esta evolução alterará inclusivamente aquilo que a indústria automóvel oferece ao cliente: “Vão estar a vender mais do que um carro. Vão estar a vender um agente do sistema elétrico”.
A conclusão da administradora da EDP foi precisamente a necessidade de maior integração entre os dois setores: depois de décadas em que automóvel e energia foram desenvolvidos separadamente, será necessário começar a desenhar os dois sistemas em conjunto. Os milhões de automóveis que passam grande parte do dia estacionados poderão, no futuro, ser também milhões de ativos energéticos integrados numa rede mais digital, flexível e renovável.














