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“Temos zonas onde ainda não foram restabelecidas as comunicações nem energia para poderem começar a funcionar”, Saúl Coelho, SC Centralinas

20 Fevereiro, 2026

A SC Centralinas foi uma das muitas empresas do setor automóvel afetadas pela tempestade que atingiu com particular violência a zona centro do país no final de janeiro. Saúl Coelho indica que, embora os danos estruturais nas instalações tenham sido limitados quando comparados com o cenário de destruição em redor, o impacto na operação foi imediato e profundo, com a paralisação total dos serviços devido à falha de energia, comunicações e sistemas informáticos.

Passadas mais de três semanas, a empresa começa agora a recuperar alguma estabilidade, mas alerta para as consequências graves que o fenómeno teve nas oficinas da região e para os desafios estruturais que persistem.

Quais os efeitos que a tempestade teve nas vossas instalações e na vossa operação?
Felizmente as nossas instalações não foram muito afetadas em termos de estruturais, teto, janelas e portões. Começámos a ter infiltração de água pelo telhado que não tínhamos antes, o que me leva a crer que o telhado cedeu em alguns pontos, mas apenas isso. Tendo em conta a destruição ao nosso redor acaba por ser um dano ínfimo. A nossa operação e funcionamento esse sim ficou totalmente em baixo porque deixámos de ter luz, comunicações (telemóvel e internet), água e todos os sistemas informáticos ficaram inoperacionais.

Já estão restabelecidas as condições para um “normal” funcionamento e, se não estiveram, em que condições estão a operador e quando esperam retomar um pouco da normalidade?
Passados 23 dias da tempestade já começamos a ter alguma normalidade devido ao restabelecimento estável de água e eletricidade. Mas estivemos cerca de 8 dias inoperacionais, 5 dias a trabalhar com energia elétrica proveniente de um gerador próprio e neste momento ainda temos as comunicações de fibra inoperacionais. Estamos a utilizar os telemóveis como router para conseguir trabalhar e aceder à internet. Acredito que a normalidade deverá ser retomada durante o mês de março, antes disso será difícil devido à destruição das infraestruturas.

Neste momento conseguem traçar um cenário dos efeitos da tempestade nos vossos clientes (sobretudo as oficinas)? Conseguem ter dados / noção sobre a dimensão dos efeitos que a tempestade teve nas oficinas?
Os efeitos sentidos na zona centro entre Vieira de Leiria, Marinha Grande, Pombal e Leiria foram catastróficos. Temos conhecimento de situações em que os responsáveis estão a ponderar não voltar à atividade devido à destruição nas oficinas, oficinas com prejuízos de milhares de euros em que levará meses ou até anos a conseguir restabelecer os equipamentos e a operação plena, telhados que caíram e provocaram estragos em carros de clientes em que nem a oficina nem o carro tinham seguro para este tipo de calamidades e podíamos continuar… Temos na zona um cenário muito negro para todo o setor do ramo automóvel que levará muito tempo a ser recuperado.

Quais são neste momento as grandes necessidades das oficinas afetadas pra que possam reabrir ou funcionar de forma “normal”?
Penso que a principal dificuldade será a recuperação das infraestruturas das oficinas porque não existe mão de obra disponível nem materiais para recuperação. A somar a isto, temos zonas onde ainda não foram restabelecidas as comunicações nem energia para poderem começar a funcionar.

Que mensagem gostariam de deixar neste momento (aos clientes, às autoridades, etc) sobre a realidade do impacto que esta tempestade tem tido e vai ter no nosso setor pós-venda (tem em conta a mobilidade das pessoas e das empresas)?
Aos colegas do setor, deixo uma mensagem de apreço, motivação e força porque foi uma situação realmente complicada mas espero sinceramente que todos consigam reerguer os seus negócios. Não desistam, estamos cá e melhores dias estão a chegar, como diz o ditado, os anéis foram mas ficaram as mãos para poder trabalhar. Da nossa parte, estaremos disponíveis para ajudar os colegas dentro da nossa especialidade. Aos bombeiros e autoridades, deixo um enorme agradecimento por todo o esforço e proteção numa altura tão difícil como esta, foram incansáveis. A toda a ajuda e voluntários que se deslocaram a Leiria de propósito para ajudar a trazer mantimentos, muito obrigado! Ao governo apenas deixar um reparo que as empresas não precisam de mais crédito, precisam de ajuda efetiva para manter o nosso país a funcionar e a crescer. É preciso refletir que neste momento as pessoas estão empenhadas a tentar recuperar as suas casas, bens e voltar a ter algum do conforto perdido. A reparação do carro acaba por ficar em segundo plano, isto é algo que é preciso analisar no longo prazo porque além de recuperar as oficinas é preciso voltar a recuperar o fluxo de cliente. Tanto um como o outro, levará bastante tempo. Para quem não viveu toda a situação pode ser complicado de imaginar um cenário de calamidade mas foi exatamente isso que vivemos, além da destruição provocada foi a ausência total de comunicações e serviços básicos que damos normalmente como garantidos. Espero não voltar a ter uma experiência destas mas por outro lado é positivo saber que temos de estar preparados quando algo deste gênero acontece. Desde geradores a internet via satélite, temos de abrir a nossa perspectiva de forma a ter alternativas disponíveis quando são necessárias. Neste momento estamos mais preparados do que antes do dia 28 de janeiro. Um bem haja a todos.

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