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“A nossa ambição é transformar a formação numa verdadeira ferramenta operacional do dia a dia”, Jorge Zózimo, T.Academy

A T.Academy está entre as mais antigas empresas de formação que existem em Portugal no setor automóvel. O futuro traz novos desafios para a formação e uma aposta maior da T.Academy no mercado das redes de oficinas e das oficinas independentes.

Artigo publicado na edição n.º 126 da REVISTA PÓS-VENDA Clique aqui para consultar a edição.

Com mais de quatro décadas ligadas ao ensino e ao setor automóvel, Jorge Zózimo é uma das figuras históricas da formação neste setor em Portugal. Fundador de projetos pioneiros ao nível da formação e não só, mas também responsável por outras iniciativas que marcaram gerações de profissionais, lidera hoje a T.Academy, uma empresa focada no desenvolvimento de competências e na transformação digital da aprendizagem, sobretudo no setor automóvel. Nesta conversa, partilha a evolução do setor, as novas apostas da T.Academy, os desafios do mercado independente e a visão para o futuro da formação.

Quem é o Jorge Zózimo e qual tem sido o seu “longo” percurso profissional associado ao setor automóvel e à formação?

Tenho dedicado grande parte da minha vida profissional à formação automóvel em termos académicos e na área profissional, mas sempre com uma visão que vai além da sala de formação. O meu percurso permitiu-me compreender que o verdadeiro desafio do setor não é apenas técnico – é estratégico. Trabalhei com marcas, redes e operadores independentes, o que me deu uma leitura global do ecossistema do pós-venda. Hoje vejo a formação como uma alavanca de transformação estrutural das oficinas. Estamos a atravessar a maior revolução tecnológica da história do automóvel e quem liderar o conhecimento vai liderar o mercado. Formei ao longo de muitos anos engenheiros mecânicos no ISEL e nos Pupilos do Exército, com um conhecimento sobre a parte automóvel o mais completo possível que, tem permitido aos que o escolheram, singrar neste setor.

Sempre focado na componente da formação técnica?

Como disse, dividi a minha vida entre duas grandes áreas: o ensino e a atividade empresarial. Comecei a dar aulas em 1975, no ensino superior, na área da engenharia mecânica, onde lecionei disciplinas ligadas a motores e máquinas térmicas. Mais tarde, criei também uma disciplina opcional de gestão automóvel, que teve sempre grande procura. Em paralelo, em 1989, surgiu a oportunidade de criar uma empresa dedicada à formação automóvel. Foi algo que apareceu quase por acaso, quando a Ford decidiu externalizar a formação e me desafiou a apresentar um projeto. Assim nasceu a empresa que viria a dar origem ao percurso que hoje continua na T.Academy.

Fala-nos um pouco do que é a T.Academy?

A T.Academy representa naturalmente a evolução natural de outras empresas anteriores do nosso grupo, mas também uma mudança de paradigma. Mantemos a experiência acumulada ao longo de anos de colaboração com marcas automóveis, mas assumimos agora uma missão mais ambiciosa: preparar o setor para a nova mobilidade. A T.Academy surgiu também numa fase em que queríamos evoluir e criar uma estrutura mais moderna, sobretudo com foco na gestão de talento e na integração de novas tecnologias na formação. Já não falamos apenas de mecânica – falamos de software, eletrificação, inteligência artificial, conectividade e assistência remota. A T.Academy posiciona-se como uma plataforma de conhecimento contínuo, onde a formação é integrada na operação diária da oficina, seja ela técnica, seja de gestão.

A T.Academy tem a sua formação muito associada às marcas de automóveis. Existe uma estratégia de alargamento das formações ao mercado das oficinas independentes e redes?

Sem dúvida. A tecnologia não é exclusiva das redes oficiais. Os veículos que entram numa oficina independente têm o mesmo nível de complexidade eletrónica, ADAS ou sistemas de alta voltagem. Por isso, precisam de ter tanta ou mais formação, pois lidam com diferentes sistemas de diferentes marcas de automóveis. A nossa estratégia passa por alargar o acesso ao conhecimento avançado aos independentes, criando modelos flexíveis, híbridos e tecnologicamente suportados que permitam a todos os que trabalham no setor alcançar uma elevada competência.

Já não é uma novidade para a T.Academy trabalhar o setor das oficinas independentes e redes oficinais?

Continuamos muito ligados às marcas, que são um pilar fundamental da nossa atividade, mas temos vindo a trabalhar também com redes e oficinas independentes. Cito o exemplo da rede CGA, onde temos dinamizado um interessante projeto de formação. Já colaboramos com várias redes e grupos, e vemos claramente potencial nesse segmento. No entanto, é um mercado com características próprias: muitas oficinas reconhecem a importância da formação, mas nem sempre conseguem disponibilizar tempo ou recursos para investir de forma consistente. E isso, na minha opinião, tem que mudar urgentemente.

Porém a realidade do mercado independente é bem diferente das redes oficiais das marcas de automóveis?

É um mercado muito heterogéneo. Existe um grupo relativamente pequeno de oficinas altamente profissionalizadas, bem equipadas e conscientes da necessidade de atualização constante. Depois há um grande segmento intermédio, com níveis de organização variáveis, e um conjunto de pequenas estruturas que operam de forma muito limitada em termos técnicos e organizacionais. As oficinas mais evoluídas são naturalmente o nosso principal alvo de investimento formativo, porque reconhecem o valor do conhecimento.

A T.Academy pretende também trabalhar com outros operadores, como grossistas ou grupos de retalho?

Sim, essa é uma área com potencial. A formação pode ser disponibilizada através de parceiros que, por sua vez, a colocam ao serviço das oficinas com quem trabalham. É um modelo que faz sentido porque aproxima o conhecimento do terreno e reforça a cadeia de valor do pós-venda.

Qual o projeto de formação e a visão que a T.Academy tem para as oficinas / redes de oficinas?

A visão da T.Academy para as oficinas parte da convicção de que o setor da reparação automóvel está a atravessar uma transformação profunda e irreversível, impulsionada pela digitalização, pela eletrificação dos veículos e pela crescente complexidade tecnológica. Neste contexto, a oficina do futuro não será apenas um espaço de reparação, mas um ponto de diagnóstico avançado, atualização de software, calibração de sistemas autónomos e gestão de dados. Falamos de oficinas que não se limitam a substituir peças nem a serem um mero espaço de reparação / manutenção, mas que realizam diagnósticos avançados, atualizações de software, calibração de sistemas de assistência à condução, intervenções em veículos eletrificados e gestão profissionalizada de dados técnicos. Este novo paradigma exige profissionais altamente qualificados, com acesso permanente a informação atualizada e a soluções que lhes permitam intervir com rapidez, precisão e confiança. É precisamente neste cenário que assenta a visão estratégica da T.Academy, estruturada em três pilares fundamentais. O primeiro é o conhecimento contínuo e dinâmico, entendido não como um momento pontual de formação, mas como um processo permanente de atualização ao longo da vida profissional. O segundo pilar é a integração da tecnologia na aprendizagem, através de plataformas digitais, conteúdos interativos e metodologias que aproximam a formação da realidade prática da oficina. Por fim, o terceiro pilar centra-se no suporte inteligente no momento da intervenção, garantindo que o técnico tem acesso, em tempo real, à informação e às orientações necessárias para executar corretamente cada operação.

É ambiciosa essa visão para as oficinas independentes?

A ambição da T.Academy é transformar a formação numa verdadeira ferramenta operacional do dia a dia, deixando de ser vista como algo distante ou teórico para passar a estar integrada na rotina da oficina. Por isso, repito, a nossa visão assenta num conceito simples: aprendizagem contínua ao longo de toda a carreira. O técnico automóvel vai ter de atualizar permanentemente os seus conhecimentos, porque a tecnologia evolui muito rapidamente. Isso implica modelos de formação mais flexíveis, próximos do contexto real de trabalho e integrados no dia-a-dia da oficina.

O que querem oferecer às oficinas independentes e às redes oficinais?

Para além da formação técnica especializada (eletrificação, diagnóstico avançado, ADAS, conectividade, etc), estamos a desenvolver projetos diferenciadores que posicionam a T.Academy na vanguarda tecnológica. Os tais modelos de formação flexíveis assentam precisamente nesta vanguarda tecnológica. Estar numa sala a passar power-point’s já passou à história. Queremos também investir muito na formação em áreas complementares como a gestão, organização operacional e rentabilidade. Mais do que cursos tradicionais, estamos a trabalhar em soluções que permitam acesso rápido ao conhecimento, como formação modular, personalizada e com forte integração tecnológica.

A formação será cada vez mais online?

A formação será cada vez mais híbrida e integrada, deixando de fazer sentido a ideia de “online vs presencial”. O futuro passa por um modelo combinado que inclui microlearning digital, simulação virtual, realidade aumentada, diagnóstico inteligente, apoio remoto e sessões práticas presenciais altamente especializadas. Neste contexto, o técnico passará a aprender diariamente, de forma contínua, com forte suporte tecnológico, e a formação deixará de ser um evento pontual para se tornar num processo permanente.

Achas que as oficinas estão preparadas para esse futuro que já é presente?

Algumas estão a antecipar a mudança. Outras ainda estão focadas na sobrevivência do dia-a-dia. Mas o mercado vai selecionar naturalmente quem investe em conhecimento. Diria que cerca de 20% do mercado está muito bem posicionado, enquanto uma parte significativa ainda tem um caminho a percorrer, sobretudo ao nível da organização e da qualificação técnica. A eletrificação, os sistemas autónomos e a digitalização vão aumentar exponencialmente a exigência técnica. Não se trata de alarmismo, trata-se de realidade tecnológica.

Se não apostarem na formação, correm risco de fechar?

O risco é claro. A oficina que não dominar diagnóstico eletrónico, software e sistemas avançados ficará limitada a intervenções de baixa complexidade e menor rentabilidade. Dentro de 5 a 10 anos, a diferença entre oficinas será essencialmente o nível de competência tecnológica.

O problema das oficinas é muitas vezes a sua deficiente gestão operacional, no dia-a-dia, como empresas. Tem sido isso que tem dificultado a visão das oficinas para a importância de investirem na formação? Ou achas que é uma questão cultural?

Eu acho que é acima de tudo estrutural. Durante décadas, o setor valorizou sobretudo a experiência prática. Hoje, experiência sem atualização tecnológica não é suficiente. Precisamos de uma mudança cultural onde a formação é vista como investimento estratégico obrigatório, não opcional.

Como resolver a falta de técnicos?

Para resolver a falta de técnicos é essencial reposicionar a profissão e mudar a forma como ela é percecionada. O técnico do futuro deixará de ser visto apenas como um mecânico tradicional, passando a assumir o papel de especialista em sistemas eletrónicos, software e tecnologia aplicada. Esta evolução deverá tornar a profissão mais atrativa para os jovens, contribuindo para alterar e valorizar a imagem que ainda hoje existe no setor. Neste contexto, torna-se fundamental apostar na criação de carreiras estruturadas e com progressão clara, na implementação de certificações reconhecidas, no reforço de parcerias com escolas e centros de formação, numa comunicação mais moderna e apelativa do setor e, sobretudo, na integração crescente de tecnologia no dia-a-dia das oficinas. Só assim será possível atrair, formar e reter novos profissionais qualificados.

Quais são as maiores necessidades atuais de formação?

As maiores necessidades atuais de formação no setor automóvel dividem-se entre competências técnicas e não técnicas, refletindo a transformação profunda que as oficinas estão a viver. Do ponto de vista técnico, destaca-se a crescente importância da eletrificação e dos sistemas de alta voltagem, do diagnóstico avançado, dos sistemas ADAS e respetivos processos de calibração, bem como do domínio do software, da conectividade e da cibersegurança automóvel. Paralelamente, as competências não técnicas assumem hoje um peso cada vez maior. Torna-se essencial reforçar conhecimentos em gestão estratégica, liderança de equipas e rentabilidade do negócio, ao mesmo tempo que se aposta na melhoria da experiência do cliente e na transformação digital das oficinas. Esta combinação de competências técnicas e de gestão é, atualmente, decisiva para garantir a competitividade e a sustentabilidade das empresas do setor.

O que é necessário para que as oficinas invistam mais na formação?

Para que as oficinas invistam mais em formação, é fundamental demonstrar de forma clara que essa aposta gera uma vantagem competitiva mensurável e direta no negócio. Quando os gestores percebem que a qualificação das equipas tem impacto concreto nos resultados, a formação deixa de ser vista como um custo e passa a ser encarada como um investimento estratégico. Entre os principais benefícios destacam-se a redução do trabalho repetido, o aumento da produtividade, a possibilidade de elevar o ticket médio, a melhoria da retenção de clientes e a capacidade de intervir em veículos de última geração, cada vez mais complexos e tecnologicamente exigentes. No fundo, o futuro do setor não dependerá das oficinas maiores, mas sim das mais competentes, aquelas que conseguem transformar conhecimento em eficiência, qualidade e valor para o cliente.

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