A evolução tecnológica dos automóveis, a dificuldade em encontrar e reter profissionais qualificados, a transformação dos modelos de negócio e o impacto da inteligência artificial estiveram em debate no painel “A Oficina do Futuro: Tecnologia, Pessoas, Negócio e IA”, realizado durante a convenção comemorativa dos dez anos da Pador Auto Service, em Alcobaça.
Moderado por Dário Afonso, o painel contou com a participação de Miguel Pereira, especialista em técnica automóvel e legislação de pós-venda, Artur Queirós, na área da gestão de recursos humanos, Luís Lobo, ligado ao pós-venda dos fabricantes e retalho, e Bruno Cal, especialista em inteligência artificial.
Miguel Pereira: software e acesso à informação serão determinantes
Miguel Pereira destacou a crescente complexidade tecnológica dos veículos e os desafios que esta evolução coloca às oficinas independentes. O automóvel deixou de ser apenas um conjunto de componentes mecânicos e eletrónicos, passando a depender cada vez mais de software, programação, atualizações e sistemas de segurança.
Neste contexto, identificou três áreas fundamentais de investimento para as oficinas: competências em software e diagnóstico, preparação para trabalhar com veículos elétricos e sistemas de alta tensão, e capacidade de intervenção em sistemas conectados, incluindo diagnóstico remoto e acesso seguro aos veículos.
O especialista alertou também para os desafios regulamentares, nomeadamente as exigências de certificação para determinadas operações, as regras de segurança no acesso aos sistemas eletrónicos e as novas obrigações associadas à evolução tecnológica dos automóveis.
A questão do acesso à informação técnica mereceu particular atenção. Miguel Pereira referiu que, embora existam mecanismos legais para permitir esse acesso, continuam a verificar-se dificuldades práticas relacionadas com os procedimentos de registo, autenticação e autorização exigidos pelos fabricantes.
Artur Queirós: reter profissionais exige mais do que salários
A gestão das pessoas foi outro dos temas centrais do debate. Artur Queirós destacou a crescente dificuldade das empresas em recrutar profissionais qualificados, considerando que a evolução tecnológica do setor tem sido mais rápida do que a capacidade de formação e renovação dos recursos humanos.
Na sua perspetiva, a resposta a este problema não pode passar exclusivamente pelo aumento dos salários. As oficinas devem apostar na criação de condições de trabalho atrativas, na proximidade entre empresários e colaboradores, no reconhecimento profissional e na definição de oportunidades de desenvolvimento.
O especialista defendeu uma gestão mais individualizada das equipas, que tenha em conta as diferentes necessidades e motivações dos trabalhadores. Chamou também a atenção para a importância da liderança, salientando que muitos empresários possuem excelentes competências técnicas, mas nem sempre dispõem da preparação necessária para gerir pessoas.
A capacidade de reconhecer o trabalho desenvolvido, acompanhar os colaboradores e criar equipas equilibradas foi apontada como essencial para assegurar a estabilidade e continuidade dos negócios.
Luís Lobo: oficinas independentes podem aprender com o pós-venda das marcas
Luís Lobo abordou a evolução dos modelos de negócio e as diferenças entre o pós-venda oficial dos fabricantes e as oficinas independentes.
O responsável destacou que os reparadores autorizados beneficiam de processos estruturados, métodos de trabalho normalizados e sistemas de acompanhamento dos clientes, práticas que podem servir de referência ao aftermarket independente.
Como exemplo, apontou a importância de realizar uma avaliação do estado do veículo no momento da receção, identificando eventuais necessidades de manutenção e explicando ao cliente as intervenções recomendadas. Esta prática permite melhorar a comunicação, reforçar a confiança e criar oportunidades adicionais de negócio.
Por outro lado, salientou que as oficinas independentes possuem vantagens próprias, nomeadamente a proximidade com os clientes, a flexibilidade e a capacidade de adaptação.
Luís Lobo considerou ainda que a transparência, a confiança e a qualidade do atendimento serão cada vez mais determinantes na escolha de uma oficina, especialmente perante consumidores mais informados e habituados a processos digitais.
Bruno Cal: inteligência artificial pode transformar a produtividade das oficinas
A inteligência artificial encerrou os principais temas do debate, com Bruno Cal a defender que as oficinas devem começar desde já a explorar as possibilidades desta tecnologia.
O especialista explicou que a inteligência artificial pode ser aplicada em diferentes áreas da atividade, desde a comunicação com os clientes e a preparação de informação até à organização de processos administrativos, gestão operacional e apoio à tomada de decisões.
Uma das principais oportunidades identificadas passa pela automatização de tarefas repetitivas, libertando os profissionais para atividades de maior valor acrescentado.
Bruno Cal considerou que, antes de investir em ferramentas, as empresas devem compreender os seus próprios processos e identificar onde a inteligência artificial pode acrescentar valor. A simples adoção de tecnologia, sem alterações na organização do trabalho, dificilmente permitirá alcançar os resultados esperados.
Alertou também para os riscos de confiar excessivamente nas respostas produzidas pelos sistemas de inteligência artificial, defendendo a necessidade de verificar a informação e manter supervisão humana.
Na sua perspetiva, esta tecnologia pode representar uma oportunidade particularmente importante para as pequenas empresas, permitindo-lhes aceder a capacidades de organização, comunicação e análise que anteriormente estavam sobretudo ao alcance de estruturas empresariais de maior dimensão.
O debate terminou com uma mensagem comum, a oficina do futuro dependerá tanto da capacidade de acompanhar a evolução tecnológica como da qualidade da gestão, da valorização das pessoas e da adaptação às novas expectativas dos clientes.
A crescente importância do software, a necessidade de formação contínua, a eficiência dos processos e a utilização inteligente das ferramentas digitais serão fatores fundamentais para a competitividade das oficinas independentes nos próximos anos.















