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“O cenário em determinadas zonas é muitíssimo preocupante. Algumas oficinas desapareceram…”, Manuel Vicente, Rodapeças

6 Fevereiro, 2026

A devastação causada pela tempestade Kristin teve um enorme impacto no setor do pós-venda, sobretudo na região do litoral centro de Portugal. São muitas as oficinas fechadas e muitos operadores de peças com dificuldades em voltar à normalidade. Uma dessas empresas é a Rodapeças, que através de Manuel Vicente, traça o cenário vivido até ao momento pela empresa e também pelo seus clientes oficinais.

Quais os efeitos que a tempestade teve nas vossas instalações e na vossa operação nas regiões afetadas?
A Rodapeças tem 7 lojas distribuídas pela zona centro litoral do país, com a sua sede no Carriço. A sede teve estragos físicos pouco significativos, mas esteve sem água, luz e comunicações durante uma semana. A loja mais afetada foi a da Marinha Grande, em que as instalações sofreram danos físicos severos, com uma parte substancial do telhado arrancado pela força do vento. Uma grande parte do material em stock dessa loja não teve aproveitamento. Sendo a loja onde se concentra o centro de formação, este foi também muito afetado. As lojas da zona de Leiria (Pousos e Picoto), foram afetadas com algumas telhas partidas e entradas de água. A única loja que conseguiu manter a sua operacionalidade desde a tempestade foi as Caldas da Rainha. Mesmo as lojas de Pombal e Figueira da Foz, sofreram danos apreciáveis. Em todas as lojas com exceção das Caldas da Rainha, a eletricidade, a água e as comunicações, foram chegando muito lentamente.

Já estão restabelecidas as condições para um “normal” funcionamento?
Estamos na data que escrevemos estas linhas (6 de fevereiro), com a seguinte situação:
Carriço – Falta comunicações fixas (rede móvel e internet)
Figueira – Falta de internet
Pombal – Pleno funcionamento
Picoto – Sem luz, internet e rede (telefone fixo)
Pousos – A luz veio a dia 05/02, sem rede móvel
Marinha Grande – Em funcionamento, mas com estragos evidentes nas instalações
Caldas da Rainha – Pleno funcionamento

Em alguns casos, criámos um plano de contingência e, estamos a assistir clientes de determinadas zonas, em que não temos a loja da região a operar, em outras lojas que temos condições para tal.

Se a chuva nos der tréguas nos próximos dias, esperamos regressar à “normalidade” nas próximas 2 a 3 semanas. Sendo que, por aquilo que assistimos, teremos muitas situações nos próximos tempos de faltas esporádicas de eletricidade, de internet e, de comunicações fixas.

Neste momento conseguem traçar um cenário dos efeitos da tempestade nos vossos clientes (sobretudo as oficinas)? Conseguem ter dados / noção sobre a dimensão dos efeitos que a tempestade teve nas oficinas?
O cenário em determinadas zonas é muitíssimo preocupante. Algumas oficinas desapareceram… as instalações foram devoradas pelo vento, os equipamentos completamente destruídos pela chuva e vento e, muitas viaturas de clientes que estavam em parque para reparação, foram afetadas ou mesmo destruídas. Em alguns casos, não sabemos se terão condições de iniciar de novo as suas operações. Não só pela questão financeira, mas também pela questão emocional. Muitos projetos de uma vida, foram destruídos em poucas horas.

As zonas mais afetadas são efetivamente as zonas da Marinha Grande e circundantes, assim como algumas zonas de Leiria, em que tudo ficou destruído.

Com o que temos aferido junto dos nossos clientes e outras oficinas, podemos afirmar o seguinte:
Marinha Grande:
– 75% das Oficinas foram afetadas com a tempestade
– 20% das Oficinas levarão meses a recuperar

Leiria Norte
– 35% das Oficinas foram afetadas com a tempestade
– 10% das Oficinas levarão meses a recuperar

Leiria Sul
– 70% das Oficinas foram afetadas com a tempestade
– 30% das Oficinas levarão meses a recuperar

Figueira da Foz
– 50% das Oficinas foram afetadas com a tempestade
– 20% das Oficinas levarão meses a recuperar

Pombal
– 40% das Oficinas foram afetadas com a tempestade
– 15% das Oficinas levarão meses a recuperar

Carriço
– 30% das Oficinas foram afetadas com a tempestade
– 10% das Oficinas levarão meses a recuperar

Quais são neste momento as grandes necessidades das oficinas afetadas para que possam reabrir ou funcionar de forma “normal”?
A primeira grande necessidade e que não depende de ninguém, é a melhoria das condições climatéricas. A continuar a chover de forma ininterrupta como tem acontecido, fica muito difícil iniciar o processo de recuperação. Obviamente, as oficinas (como todos nós…) necessitam dos serviços mínimos como água, eletricidade e comunicações, para poderem laborar. E isso tem de ser garantido. Numa vertente de sustentabilidade do negócio, será muito importante os empresários saberem o que podem fazer para minorar o impacto desta catástrofe. O governo tem comunicado uma série de ajudas, algumas delas muito semelhantes ao que foi feito no período do Covid. Os empresários devem recorrer aos seus contabilistas e aos gestores dos bancos com que trabalham, para receberem esta informação. Aqueles que têm seguros, devem quanto antes, ir junto do seu mediador, tratar de apresentar a sua situação.

Que mensagem gostariam de deixar neste momento (aos clientes, às autoridades, etc) sobre a realidade do impacto que esta tempestade tem tido e vai ter no nosso setor pós-venda (tem em conta a mobilidade das pessoas e das empresas)?
A mensagem que gostaríamos de deixar aos nossos clientes, é a seguinte, mesmo sem estarmos a 100% das nossas capacidades, também estamos aqui para dar o nosso contributo à vossa recuperação. É mais um momento de exceção, em que a catástrofe bateu à porta de todos e, como tal, aqui estamos a dizer “presente”.
No que diz respeito às autoridades, seria importante que estas mostrassem um plano de recuperação desta zona tão afetada, com uma liderança forte e, com ações práticas e de rápida aplicabilidade. As oficinas são empresas que têm compromissos e, estes não fazem “pausa”, porque a empresa fisicamente (quase) desapareceu ou perdeu a sua capacidade de laboração. A interligação entre o governo central e o governo local, numa situação destas é imprescindível.
Muitas pessoas gastaram (e estão a gastar) o dinheiro que tinham de parte, ou que não tinham e por isso, terão de recorrer a crédito, para reconstruir as suas casas. Isto impacta diretamente na decisão de compra de viatura, seja ela nova ou usada. Teremos seguramente um parque mais envelhecido nesta zona do país, impactando diretamente o valor das reparações e, logo, no valor das peças vendidas.
O nosso negócio é fortemente impactado pela logística, como sabemos. Quando temos estradas submersas, estradas destruídas e estradas obstruídas por árvores, pedras, muros, o nível de serviço a que o setor está habituado, terá forçosamente um período de adaptação.
Num momento muito difícil e complicado para a Rodapeças, fomos abordados várias vezes, logo que conseguimos receber chamadas telefónicas ou mensagens, por parceiros, fornecedores e até clientes, com disponibilidade em vários formatos, para nos ajudar. São este tipo de ações, comoventes até em alguns casos, que nos fazem seguir em frente.

 

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