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OVOKO: Peças usadas além-fronteiras

A Ovoko opera uma plataforma digital que agrega milhões de peças usadas, suportada por um sistema logístico próprio.

Artigo publicado na edição n.º 129 da REVISTA PÓS-VENDA.

A Ovoko foi fundada em 2016, na Lituânia, por um empresário de outro ramo de atividade, que apostou no potencial da digitalização no desmantelamento de veículos.

“Hoje, somos mais de 300 pessoas na equipa Ovoko e somos um intermediário no comércio de peças usadas provenientes de 17 países, da Finlândia a Portugal”, explicou à PÓS-VENDA Kestutis Bruzgis, Head of Business Development na Ovoko. “Atualmente, a plataforma funciona como um marketplace robusto que reúne ofertas de fornecedores profissionais, permitindo pesquisas precisas e comparação de preços. Na plataforma, é possível comparar preços e ver fotografias reais de peças de diversos centros de abate europeus.” O responsável adianta que, atualmente, a Lituânia continua a ser o mercado mais forte em termos de stock, mas a empresa tem expandido agressivamente a sua atividade na Europa Ocidental, com Espanha a assumir-se como um dos maiores consolidadores de suporte desta plataforma. “Enquanto mercados como o da Suécia já digitalizam o setor há 20 a 25 anos, a tendência geral de digitalização na Europa começou a ganhar força há cerca de 10 anos. Em Espanha, de um universo de 1000 desmanteladores, entre 500 e 600 já estão em processo de digitalização, muitos deles integrados na rede da Ovoko. Além disso, mercados como o da Polónia desempenham um papel fundamental na robustez do catálogo, contribuindo para que a plataforma consiga oferecer hoje mais de 40 milhões de peças provenientes de desmanteladores de 17 países. Esta diversidade permite que compradores de toda a Europa, incluindo Portugal, acedam a componentes que seriam difíceis de localizar apenas nos seus mercados nacionais”, indica Kestutis Bruzgis. “Estima-se que apenas 10% a 20% de todas as peças usadas na Europa estejam digitalizadas, o que revela um enorme potencial de crescimento.”

Operação logística

De acordo com Kestutis Bruzgis, um dos maiores trunfos da Ovoko perante a concorrência é a sua capacidade de gerir toda a complexidade logística, simplificando a vida dos desmanteladores. “A gestão de toda a cadeia logística é um dos maiores diferenciadores entre a Ovoko e outras plataformas. Se uma empresa portuguesa quiser vender para a Finlândia, do sul para o norte da Europa, a Ovoko organiza toda a componente logística e define custos. Na Ovoko, compreendemos o processo de A a Z, desde o software usado pelo vendedor ao tipo de informação reunida, até ao processo de devolução, se necessário.”

A Ovoko possui uma política de 14 dias, em que garante o reembolso total do item e do custo de entrega para o comprador. O responsável lembra ainda que gerir um inventário de milhões de itens exige uma logística altamente especializada, capaz de lidar com a enorme disparidade física entre os componentes automóveis. “O sistema logístico da Ovoko foi desenhado para eliminar a confusão que os vendedores enfrentam ao tentar enviar peças com dimensões drasticamente diferentes. As categorias de peças são muito diferentes. Entre enviar um para-choques ou uma peça de pequenas dimensões, as necessidades logísticas são completamente diferentes.”

Para resolver este desafio, a Ovoko pré-define os preços e seleciona as transportadoras adequadas para cada categoria, permitindo que, ao carregar num único botão, o vendedor receba uma etiqueta de envio já preparada, com preços e transportadores definidos pela plataforma. “Esta padronização transforma um processo que seria um pesadelo logístico para um pequeno centro de abate numa operação de e-commerce simples, e garante que mesmo as peças mais volumosas possam atravessar a Europa com custos controlados e acompanhamento em tempo real.”

Portugal

“Em Portugal, a procura por peças usadas é duas vezes superior à oferta disponível no país, o que justifica a necessidade de importar peças de outros países”, afirma o responsável, acrescentando que “Portugal tem demonstrado um crescimento impressionante, com o volume de vendas a duplicar anualmente”. No entanto, o perfil do comprador português distingue-se do resto da Europa pela forte componente profissional. “Curiosamente, dois terços do volume de vendas em Portugal são para compradores B2B, enquanto, na Europa, em geral, temos uma divisão de 50-50 entre profissionais e particulares. Atualmente, vendemos cerca de 70 mil peças por ano em Portugal.”

Apesar do crescimento acentuado, Kestutis Bruzgis explica que a digitalização do setor em Portugal ainda está numa fase inicial quando comparada com o norte da Europa. “Portugal apresenta um cenário mais próximo do italiano, onde o movimento começou a ganhar força há cerca de uma década. No entanto, com cerca de 2 milhões de peças digitais disponíveis no mercado português, os números são considerados muito positivos para a dimensão do país, demonstrando que os centros de abate nacionais estão a adotar rapidamente estas novas ferramentas.”

A estratégia da Ovoko para consolidar a sua presença em Portugal passa também pela colaboração com parceiros locais e pela presença física em eventos do setor. A empresa já estabeleceu parcerias com fornecedores de software nacionais, como a Atena, para integrar melhor os inventários dos desmanteladores portugueses.

Além disso, a marca tem apostado na proximidade com os profissionais nacionais através da participação em feiras de referência, como a Expomecânica, no Porto, onde interagem diretamente com centros de abate locais e oficinas. “Esse contacto direto permite ajustar as ferramentas da plataforma às necessidades específicas dos profissionais portugueses”, afirma o responsável. Kestutis Bruzgis acrescenta que a elevada procura de peças usadas em Portugal é impulsionada por uma frota automóvel com uma média de idade entre os 13 e 14 anos, o que gera uma necessidade constante de componentes para veículos já difíceis de encontrar no mercado de peças novas.

Sustentabilidade

Kestutis Bruzgis indica que, para a Ovoko, a venda de peças usadas não é apenas um negócio, mas uma missão ambiental. A empresa acredita que a digitalização é a chave para evitar a produção desnecessária de componentes novos e reduzir a pegada de carbono do setor automóvel. “A reutilização é o futuro. Temos vindo a criar toda a infraestrutura necessária para permitir que estas peças tenham sempre que possível uma segunda vida. Nos últimos 12 meses, vendemos mais de 3 milhões de peças na Europa. Isso elimina a necessidade de produzir peças novas, ou seja, cortamos toda a cadeia de emissões de CO2.”

Diretiva ELV

Kestutis Bruzgis refere que o crescimento da Ovoko está profundamente alinhado com as mudanças legislativas que se aproximam da União Europeia, nomeadamente a nova diretiva ELV, Veículos em Fim de Vida. “Esta regulação irá obrigar todos os estados-membros a aumentar significativamente a reutilização de componentes, seguindo o exemplo pioneiro da França, onde já existem leis que obrigam as oficinas a oferecer ao consumidor uma escolha entre peças novas e usadas. Este movimento não só valida a missão de sustentabilidade da Ovoko, como também empurra o mercado para uma profissionalização definitiva, onde os desmanteladores deixam de ser simples parques de sucata para se tornarem fornecedores tecnológicos essenciais na cadeia de reparação automóvel. A Ovoko posiciona-se, assim, como a infraestrutura que permite às oficinas cumprirem estas futuras obrigações legais de forma simples e eficiente.”

B2B

Ao contrário de outras soluções de e-commerce, que permitem a venda entre particulares, a Ovoko mantém uma política rigorosa de aceitar apenas vendedores profissionais e empresas certificadas no seu marketplace. “Não existe uma versão C2C deste marketplace, e as peças provêm de centros de abate oficiais, assim como de vendedores profissionais, empresas que trabalham na venda de peças, que cumprem requisitos legais e de inventário.” Para manter este padrão elevado, a Ovoko utiliza um sistema de monitorização de Top-Sellers, onde analisa constantemente dados de desempenho. “Se um vendedor começa a apresentar taxas de cancelamento ou de retorno acima do esperado, a equipa intervém para o apoiar na identificação e correção de problemas nos seus processos internos, para assegurar que a confiança do cliente não seja comprometida por falhas operacionais de parceiros individuais”, adianta Kestutis Bruzgis.

Automatização de processos

Para facilitar as trocas entre os mais de 25 países europeus onde a plataforma opera, a Ovoko investiu fortemente na automação. “Atualmente, a maioria dos processos no sistema são automáticos, o que dispensa a necessidade de interação humana constante entre comprador e vendedor.” “Para superar o desafio dos diferentes idiomas, introduzimos ferramentas de tradução automática que permitem que uma oficina em Portugal comunique de forma fluida com um desmantelador na Finlândia ou na Lituânia.”

Futuro

Quanto ao futuro da plataforma, Kestutis Bruzgis indicou que a Ovoko irá ter novas implementações a curto prazo. “O nosso objetivo é conectar todos os desmanteladores europeus à Ovoko. Queremos que qualquer comprador na Europa encontre a peça que procura.” “Estamos a procurar novas soluções, como garantias, para dar ao cliente mais informação e confiança, para que tome uma decisão bem informada.” “Acreditamos que as leis, como as que já existem em França, vão expandir-se rapidamente pela Europa.”

Operação europeia

  • A plataforma liga mais de 40 milhões de peças provenientes de desmanteladores de 17 países europeus;
  • Nos últimos 12 meses, a Ovoko vendeu mais de 3 milhões de peças em toda a Europa;
  • Atualmente, a maioria dos processos no sistema e ambiente da Ovoko são automáticos.

Portugal

  • A Ovoko vende cerca de 70 mil peças por ano em solo português;
  • O volume de vendas está a crescer mais de duas vezes por ano;
  • Dois terços do volume de vendas destinam-se a compradores B2B;
  • Existem cerca de 1,2 milhões de peças listadas no mercado português através da plataforma.

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