A oficina só consegue ser produtiva se a distribuição conseguir responder com a peça certa, no momento certo e com processos cada vez mais digitalizados e eficientes. Esta foi a conclusão do sexto e último painel do Congresso Pós-Venda Ibéria 2026.
Na apresentação que efetuou, Paula Aldea Calzón, Diretora de Comunicação e Marketing da ANCERA, destacou a importância crescente da distribuição independente de peças no funcionamento do aftermarket e, em particular, no ritmo operacional das oficinas.
Segundo os dados apresentados, o mercado independente (em Espanha) mantém uma posição dominante na distribuição de peças, com uma quota estimada em cerca de 65%, o que demonstra o peso deste canal na cadeia de valor da pós-venda.
Paula Aldea sublinhou que o setor continua a crescer, mas opera num contexto cada vez mais complexo, marcado pelo absentismo, digitalização, entrada de novos atores e crescente exigência operacional. Ao mesmo tempo, o envelhecimento e a diversidade do parque circulante obrigam os distribuidores e as oficinas a trabalhar com uma gama cada vez mais vasta e especializada de referências.
Um dos dados mais significativos apresentados foi o número médio de referências existentes nos armazéns dos distribuidores: cerca de 41.700 referências, acima das aproximadamente 38.000 registadas em anos anteriores (em Espanha). Esta evolução mostra a crescente dificuldade de gerir stock, disponibilidade e rotação de peças num parque cada vez mais heterogéneo.
A distribuição assume, assim, um papel cada vez mais próximo de um serviço “360 graus” para a oficina, não apenas disponibilizando peças, mas também equipamentos, tecnologia, apoio e soluções capazes de responder rapidamente às necessidades da reparação.
A velocidade de entrega foi outro dos pontos centrais. Segundo os dados apresentados, em Espanha, 66% dos pedidos são entregues em menos de uma hora, evidenciando a pressão existente sobre a logística e a necessidade de equilibrar rapidez de serviço com controlo de custos.
Paula Aldea salientou ainda que a distribuição independente está progressivamente mais profissionalizada e digitalizada. Cerca de 89% dos distribuidores em Espanha já têm as áreas de administração e gestão digitalizadas, enquanto outras áreas, como análise, decisão e logística, continuam a avançar nesse processo. Para a ANCERA, a digitalização deixou de ser uma opção e passou a ser uma condição essencial para competir.
A componente regulatória foi igualmente abordada. A responsável defendeu a necessidade de regras claras e eficazes, mas alertou para a importância de garantir que a regulamentação não comprometa a sustentabilidade económica e a competitividade das empresas do setor.
A principal mensagem da apresentação foi que a gestão das peças deixou de ser apenas uma questão de stock e passou a ser um processo industrial integrado na operação da oficina. Disponibilidade, rastreabilidade, velocidade de entrega, controlo de custos e digitalização são hoje elementos diretamente ligados à produtividade e à rentabilidade da reparação.
Na mesa-redonda participaram Angelo Pepe da Geimex, Gonçalo Palhas da DEKRA Portugal, Ana Izquierdo Feliz, especialista em IA e automatização inteligente da Solera, e Francesc Poch, CEO do Grup Eina Digital.
Um dos primeiros temas em destaque foi a tecnologia como suporte à decisão. Os participantes salientaram que, num contexto cada vez mais complexo, tomar decisões sem informação estruturada aumenta o risco de erro. A tecnologia e os dados surgem, assim, como ferramentas fundamentais para saber o que fazer, em que momento e com que impacto na operação.
A mesa-redonda destacou também que a gestão da peça já não pode ser vista como uma operação isolada. A disponibilidade, identificação e integração da peça no processo de reparação têm de estar ligadas ao restante fluxo da oficina, de forma a evitar perdas de tempo e aumentar a previsibilidade do trabalho.
Os dados assumem aqui um papel central. Foi sublinhada a importância de colocar informação relevante à disposição das oficinas para apoiar a decisão, o planeamento e a própria execução da reparação. O objetivo não é apenas acelerar o processo, mas fazê-lo com maior segurança, qualidade e consistência.
Outro dos pontos abordados foi a necessidade de normalizar e compreender melhor os processos operacionais. A produtividade não resulta simplesmente de fazer tudo mais depressa. Pelo contrário, passa por conhecer cada etapa, eliminar ineficiências, estudar os condicionantes e criar um processo mais previsível e repetível.
A tecnologia foi ainda analisada do ponto de vista da adoção pelas pessoas. Os participantes reconheceram que a transformação digital só produz resultados quando é compreendida e aceite por quem trabalha diariamente na operação. A componente humana continua, por isso, a ser determinante, mesmo num contexto de crescente automatização e utilização de sistemas inteligentes.
A logística surgiu igualmente como uma área crítica para a eficiência. Numa oficina moderna, a produtividade depende da capacidade de garantir que peças e componentes estão disponíveis quando são necessários. Mesmo componentes de valor relativamente reduzido podem provocar atrasos significativos se não estiverem disponíveis no momento certo.
A principal conclusão da mesa-redonda foi que dados, tecnologia, peças e logística têm de funcionar como um único sistema. A oficina mais produtiva não será necessariamente a que trabalha mais depressa, mas aquela que consegue tomar melhores decisões, reduzir incertezas e integrar de forma mais eficiente todos os elementos do processo de reparação.













