David Carreto, CEO do Grupo Carretos, foi um dos oradores do Mech Summit, organizado pela Car Academy, onde abordou o tema “Dizemos que sim a tudo… e pagamos o preço”, defendendo uma gestão mais racional das oficinas, assente em organização, especialização, controlo de números e capacidade para selecionar o trabalho certo.
Partindo da sua própria experiência enquanto técnico e empresário, David Carreto explicou que um dos maiores erros que cometeu ao longo dos anos foi aceitar trabalhos para os quais a oficina não estava devidamente preparada, seja por falta de equipamento, conhecimento, peças ou capacidade operacional.
“Dizemos que sim a tudo e pagamos o preço. E eu digo que eu paguei um preço caro nos últimos anos”, afirmou, lembrando que o caos dentro de uma oficina acaba inevitavelmente por se refletir em atrasos, reclamações e perda de rentabilidade.
Para exemplificar, recordou um episódio ocorrido em 2018, quando aceitou reparar um Mercedes W124 equipado com injeção K-Jet, apesar de não dispor dos equipamentos necessários para aquele trabalho. A dificuldade em encontrar peças, os sucessivos atrasos e o impacto sobre os restantes serviços da oficina acabaram por transformar essa decisão numa experiência negativa. “Eu é que aceitei o carro, fui bonzinho. Fiz bem o que podia. Mas aprendi com isso. E aprendi da pior maneira”, contou.
A partir desse episódio, David Carreto começou a estabelecer regras mais claras para o funcionamento do negócio. A principal conclusão, segundo explicou, foi que ter a oficina cheia não significa necessariamente ter uma oficina rentável.
“Dizer que sim a tudo tem um preço que nunca se vê logo. Só mais à frente é que a gente percebe”, referiu, defendendo que uma oficina sem controlo pode ter muito trabalho e, ainda assim, enfrentar dificuldades financeiras e operacionais.
Um dos conceitos mais destacados na intervenção foi a necessidade de as oficinas aprenderem a “dizer não sem dizer não”.
Na prática, isso significa gerir as expectativas do cliente, selecionar os trabalhos que se enquadram na capacidade e no posicionamento da empresa e evitar prometer aquilo que a oficina não consegue cumprir.
David Carreto defendeu também que o futuro do setor deverá passar cada vez mais pela especialização. “Não podemos aceitar tudo”, afirmou, acrescentando que “cada vez mais o futuro das oficinas de automóveis nos leva para a especialização em alguma coisa”.
Esta mudança implica igualmente preparar as equipas para tomarem decisões sem depender constantemente do proprietário ou gestor da oficina. Para David Carreto, uma empresa só consegue ganhar dimensão quando o empresário deixa de estar totalmente absorvido pela operação e começa a criar processos que possam ser executados de forma consistente pelas equipas.
Outro dos pontos centrais da apresentação foi a importância da gestão baseada em indicadores. David Carreto explicou que começou a transformar a oficina quando passou a conhecer detalhadamente indicadores como o número de viaturas intervencionadas, horas vendidas, produtividade, margem média por carro e faturação por viatura. “Só consegui fazê-lo porque desmontei a minha oficina em números”, afirmou.
Como exemplo dessa evolução, revelou que o ticket médio de reparação passou de 370 euros em 2019 para 656 euros em agosto de 2026, resultado da segmentação do trabalho, da seleção de clientes e serviços e de uma maior aposta na rentabilidade por intervenção.
Também a idade média dos veículos intervencionados diminuiu, passando de 11,6 anos em 2019 para 8,2 anos, refletindo a estratégia de filtrar serviços e procurar maior previsibilidade na operação.
À medida que o Grupo Carretos foi crescendo, David Carreto apostou também na criação de sistemas destinados a uniformizar processos, acelerar a resposta ao cliente e reduzir a dependência das pessoas para tarefas repetitivas.
Entre os exemplos apresentados estão a centralização de orçamentos, a criação de um call center e o desenvolvimento de uma plataforma própria que permite ao cliente identificar o veículo, escolher o serviço, obter o preço e agendar em função da disponibilidade.
“Quem tem o preço na hora, decide na hora”, afirmou, defendendo que a rapidez da resposta é determinante para a conversão e para a previsibilidade do negócio.
Atualmente, explicou, o sistema permite realizar processos de forma automática a qualquer hora, estando também a ser integrada Inteligência Artificial para aumentar ainda mais a autonomia da operação.
A mensagem deixada por David Carreto no Mech Summit foi, assim, clara: crescer não passa por aceitar todos os trabalhos, mas por definir regras, conhecer os números, organizar processos, responsabilizar as equipas e concentrar recursos naquilo que realmente cria valor para a oficina e para o cliente.













