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Personalidade do mês – António Caldeira, CEPRA: “A gestão do conhecimento é fundamental em todas as organizações”

14 Julho, 2021
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Quase há 20 anos à frente dos destinos do CEPRA, António Caldeira tem apostado em dinamizar o Centro, por forma a acompanhar as necessidades e desenvolvimentos do setor automóvel.

No ano em que comemora o seu 40.º aniversário, o Centro de Formação Profissional da Reparação Automóvel – CEPRA, adaptou-se às restrições da pandemia e, além de dinamizar formação online, tem planos de apoio para as empresas e profissionais afetados pela crise do setor automóvel. À PÓS-VENDA, António Caldeira revela as peculiaridades deste centro de referência na formação de jovens e ativos em Portugal para o setor da reparação automóvel.

De que forma apresentaria o que é o CEPRA?
Em poucas palavras, o CEPRA é uma organização que se dedica exclusivamente à formação profissional do setor automóvel. E é o maior operador nacional nesta área atualmente. Estamos a falar de, num ano anterior à pandemia, em média, 5 mil formandos por ano, e mais de 500 mil horas de formação por ano, nas várias modalidades que temos. Em termos de orçamento somos também quem tem mais orçamento e mais meios, em termos de equipamentos e condições técnicas.

O que significam estes 40 anos?
Eu estou no CEPRA há quase metade da história do CEPRA. Conheço bem a casa, felizmente temos vindo a evoluir, a evolução tem sido notória a todos os níveis, sem perder a nossa qualidade e reconhecimento no setor. Poderíamos ter melhores instalações e equipamentos mas se não fôssemos reconhecidos pela nossa qualidade de intervenção, não seríamos nada. O nosso principal ativo, é, por isso, este reconhecimento de qualidade. E é por isso a nossa maior dificuldade, conseguir manter recursos humanos com qualidade e em quantidade. E a falta de recursos humanos de qualidade é geral em todo o setor. O que nos causa desafios é que o setor vem buscar os nossos formadores e, por isso, estamos sempre num ciclo de admissão, os nossos formadores melhoram as suas capacidades e o mercado vem buscá-los. Estamos neste momento, inclusivamente, a fazer um processo de recrutamento de Técnicos Superiores e Técnicos de Formação. A gestão do conhecimento hoje em dia é fundamental em todas as organizações. O CEPRA iniciou atividade com um conjunto de pessoas, que eram reconhecidas no setor, e que entretanto atingiram a idade de reforma ao mesmo tempo. E o desafio foi substituir essas pessoas.

Entende que o setor automóvel seria diferente se o CEPRA não tivesse existido?
Sim, o CEPRA tem sido muito importante para o desenvolvimento do setor. Se
o CEPRA não existisse, outra entidade ocuparia esse espaço. A questão é de que forma o iria fazer. O CEPRA tem particularidades muito importantes para o setor, e que o apoiam, mesmo que por vezes não exista essa perceção. Por exemplo, o facto de sermos uma entidade pública sem fins lucrativos, faz com que o nosso objetivo não seja o lucro. Cobramos taxas de inscrição, mas, a qualidade dos nossos cursos faria com que, se praticássemos preços de mercado, estávamos a falar de valores de inscrição 3, 4 ou 5 vezes superiores aos que temos. E, por isso, aqui também se vê o apoio que damos ao setor por esta via. A formação não é um custo, é um investimento, mas se uma empresa tiver de gastar, por exemplo, 300€, não é o mesmo de gastar 50€. Por exemplo, fomos a primeira organização nacional a fazer certificação para técnicos de ar condicionado. E nessa altura associámos os cursos a um valor, tendo, todos os outros, se posicionado em termos de preços, de acordo com o valor que nós praticámos. E por isso, desempenhamos este papel de apoio e, de certa forma, de regulador.

Há diversos profissionais do setor que não conhecem o CEPRA. Como explica isto?
Não há dramatismo nisso. O ideal era sermos conhecidos por todos. Desde que saibamos que existam situações que não sejam benéficas para o CEPRA, fazemos tudo para o resolver. Esta entrevista, por exemplo, ajuda a esse conhecimento por parte do mercado. Gostaríamos, obviamente, que todos os que trabalham este setor, estivessem atentas para conhecer o CEPRA. Nós temos recursos limitados, e por isso não fazemos uma divulgação agressiva. Ate porque corremos o risco de não ter capacidade de resposta. A nossa capacidade de intervençao, a forma como o fazemos, os custos associados às ações de formação, são mais vantajosos do que a generalidade das entidades, motivo pelo qual estrategicamente não fazemos muita “força” para desenvolver formação junto a marcas.

Durante muitos anos o CEPRA pareceu estar mais virado para a parte oficial do mercado automóvel e só agora está a fazer a transição para o mercado independente. Isto é verdade?
A estratégia é exactamente o contrário, ou seja, privilegiar o mercado independente, as pequenas oficinas, ir aos locais, inclusivamente. Uma área onde capitalizamos essas sinergias é por exemplo no Algarve. No Algarve temos parcerias com representantes, casas de peças, que fazem a divulgação junto dos seus clientes, e com isso acabamos por fazer dezenas de ações de formação.

Dos 5 mil formandos que têm por ano, qual a percentagem que segue para as oficinas oficiais e para o mercado independente?
Diria que, para as marcas, são cerca de 10%. Há um foco muito grande no mercado independente. Porque há players do mercado da formação que se focam no apoio às marcas. E considero que não é vocação do CEPRA ter formadores para depois os alocar 100% a marcas. A vocação do CEPRA é estar disponível para estar em qualquer local do país. Se tivermos um formador alocado 100% a uma determinada marca, não há benefício para o CEPRA. Todos os anos fazemos um período de formação específica dos nossos formadores, e os que possam estar em marcas, divulgam aos colegas o conhecimento que adquiriram. Tirando esse aspeto, não vemos valor acrescentado.

O facto de estar ligado ao Instituto do Emprego e Formação Profissional, foi potenciador do desenvolvimento do CEPRA?
Sim, claro que nos potencia, porque 90% do nosso orçamento vem do Instituto do Emprego e Formação Profissional. Claro que nos potencia e permite ter conforto, inclusivamente para enfrentar momentos como este de pandemia, pois temos meios para ajudar o mercado. O IEFP desenvolve planos de formação específicos para as entidades que estão em dificuldades, e o CEPRA faz parte dessa rede, ou seja, temos meios para, caso exista uma empresa que esteja em lay-off e queira dar formação, nós fazemos essa formação gratuitamente.

Além do IEFP, a ANECRA e a ARAN são outorgantes do CEPRA. Qual a razão para outras entidades do setor automóvel não o serem também?
Sendo entidades que se encontram várias vezes, é algo que, se fizesse sentido em termos estratégicos, com toda a certeza que já teriam havido desenvolvimentos nesse aspeto por parte dessas outras entidades.

Atualmente pode dizer-se que o CEPRA tem condições para formar um técnico para o setor automóvel que possa dar resposta às exigências atuais do setor?
Claro que sim. O CEPRA tem meios técnicos que nenhum outro centro de formação em Portugal tem. E temos dados concretos. Temos a formação inicial dos jovens, e aqui a certeza de que estamos a fazer um trabalho adequado às necessidades do mercado é o nível de empregabilidade, que não é 100% porque alguns jovens vão para o estrangeiro e outros para o ensino superior, depois de terminarem a formação. Mas aqueles que querem seguir a profissão, o mercado reconhece e são logo admitidos. Quando temos o número de profissionais que temos também a vir ter connosco, porque temos cerca de 500 jovens por ano e o resto são ativos, é sinal que estamos adequados e não estamos obsoletos. Temos de ter uma atitude correta perante o nosso plano de atividades, que permita que intervinhamos nos veículos mais atuais, mas não esquecendo que o parque automóvel em Portugal tem uma média de idade de 13 anos. A arte é termos conhecimento para todos os veículos, dos mais antigos aos mais recentes. Em média, por ano, em equipamentos e instalações, gastamos cerca de 100 mil euros. Não há outra empresa de formação que tenha uma capacidade de investimento tão grande.

Existe alguma área de formação automóvel que não esteja coberta pelo CEPRA?
Somos ecléticos, temos todas as áreas. Há formações, como técnicos de vendas, orçamentação, que em determinados momentos não temos. Pela pouca apetência que existe por parte das pessoas para ingressar nestes cursos. Mas estamos em todas as áreas e, este ano, pela celebração dos 40 anos e também pela pandemia, queremos começar a intervir em áreas que não sejam diretamente pelas saídas profissionais pelas quais somos conhecidos, como, por exemplo, a consultoria, mas que se relacionam com o setor. É algo que pode ajudar as empresas, se começarmos a intervir mais nestas áreas, como a contabilidade, técnico administrativo, receção, vendas, etc. Há empresas que nos procuram para darmos formação genérica à sua equipa, para saberem que uma determinada peça que vendem, qual o seu papel na viatura, por exemplo. Por isso pretendemos agir de forma mais transversal nas empresas.

Como avaliam as necessidades do setor e se adaptam a essa realidade?
Temos uma grande vantagem, que no Conselho de Administração temos a ANECRA e a ARAN. Temos um plano, que não é estático, que é adaptado e alterado quando necessário. Mas os inputs são fundamentalmente dos nossos outorgantes. Muita da formação que dinamizamos é através destes nossos outorgantes. Fazemos centenas de ações que são prestações de serviços, entre as quais essas para as nossas associações. É algo que não é muito visível mas é a certeza que estamos a corresponder ao que o mercado precisa. O associado diz-nos qual a sua necessidade, e a zona em que pretende realizar a ação de formação.

No seu entender, qual a razão para a escassez de mão-de-obra no setor automóvel?
Os jovens não têm apetência para este tipo de profissões. Estamos numa situação cada vez mais complicada de se resolver. No caso da pintura e reparação, juntámos as duas valências para tentar que seja mais atrativo, e é uma formação de nível IV, com equivalência ao 12.º ano. Mas, no dia-a-dia, continua a ser visto como o “bate-chapa”, e nenhum jovem quer ser “chapeiro” ou “bate-chapa”. As pessoas estão a reformar-se e não há substitutos. No caso da Mecatrónica, começamos uma turma com 18 alunos, no máximo, e chegamos ao fim com 17 ou 16. No caso da reparação e pintura, começam 18, a partir do momento em que começam a formação em contexto de trabalho, como há muita escassez, começam a ter ofertas de trabalho. E aí começam as desistências. A procura é tanta, e recebem salários acima da média, que os jovens são logo aliciados para começar a trabalhar nas empresas.

Como se resolveria isto?
Com formação. É uma realidade transversal a muitos países. Muitos deles até têm uma situação bem pior, e vão buscar técnicos ao estrangeiro. O CEPRA desafia as empresas a que sejam elas a identificar os jovens. Porque o nosso grande problema é ter os jovens para formar. Por isso, as oficinas, se precisam, integram o jovem na formação, já indicados como preferenciais para aquela determinada empresa. É um investimento para a empresa, que sabe que daqui a 2 anos e meio tem o retorno, com o jovem formado e pronto para ingressar.

Além da formação para veículos ligeiros, também existe formação para pesados?
De raiz não temos, por questões físicas. Quem é formado em ligeiros pode ir para a área dos pesados e, por isso, temos protocolos com entidades que desenvolvem atividade na área dos pesados e que nos pedem estagiários. Temos capacidade de fazer formação para pesados, já fizemos várias vezes formação para as frotas das Câmaras Municipais, e utilizámos as instalações deles. Já fizemos também ações de formação para o exército também. Mas não temos instalações próprias preparadas para tal.

Com a pandemia houve uma maior procura nesta fase pela área da formação digital?
Sim. Tivemos uma capacidade extraordinária: desenvolver cursos e-learning, totalmente à distância, e b-learning, com uma componente à distância e outra presencial, com conteúdos específicos e avaliações no final dos módulos. Damos primazia à formação b-learning, porque é totalmente diferente o formando ter uma componente prática. Estamos a caminhar para uma nova abordagem, de sessões curtas, de duas horas, online, em que falamos de determinados temas, de forma rápida. A formação à distância tem vantagens e inconvenientes, mas estamos a apostar nisso. Estamos a fazer cursos síncronos e assíncronos. Uma formação muito procurada neste momento é em elétricos e híbridos. Numa primeira fase e para apoiar as empresas, fizemos formação gratuita, e entretanto tornámos a formação paga, e tem esgotado sempre. Temos um limite de inscritos, apesar de ser um curso online, para podermos dar acompanhamento a todos os formandos de forma adequada.

Considera que esta procura pela formação digital se irá manter depois da pandemia?
Sim, penso que se irá manter. Estamos a admitir Técnicos Superiores para termos uma maior capacidade de continuar a desenvolver este tipo de formações digitais. Mesmo os cursos “tradicionais” tendem a evoluir para que uma parte da componente formativa seja por meios digitais.

De que forma o CEPRA se relaciona com o meio académico, nomeadamente os Institutos Politécnicos?
Temos protocolos com alguns Institutos Politécnicos, embora seja uma relação quase concorrencial.

Como pretendem comemorar o 40.º aniversário?
Fizemos a reformulação da imagem, que incluiu a pintura das nossas instalações. Vai também ser lançado um novo portal em breve, mais moderno e adequado aos tempos atuais. Tìnhamos previsto um seminário para assinalar a data, mas que, devido à pandemia, não sabemos se irá acontecer. E pretendemos apostar mais forte na dinamização da nossa comunicação.

Perguntas rápidas
Qual foi o seu primeiro carro?
Foi um Volkswagen Carocha.
Quantos quilómetros faz por ano?
Cerca de 30 mil.
O que mais gosta neste setor?
Um setor com muitos desafios e evoluído tecnologicamente. E a apetência que o setor tem para a área da formação.
E o que menos gosta?
A competição sem olhar ao momento e a falta de união.
Costuma acompanhar a formação que o CEPRA faz fora das suas instalações?
Não costumo acompanhar sistematicamente. Porque a maioria é feita pelas associações, que fazem esse acompanhamento.
O que gosta de fazer nos tempos livres?
Gosto muito de viajar, embora agora não seja possível.

Percurso Profissional
Formado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico, António Caldeira esteve inicialmente ligado à área fabril, como responsável em várias indústrias. Esteve depois no IEFP como Técnico Superior Consultor, tendo integrado depois o CEPRA como Presidente do Conselho de Administração, e, desde, 2008, como Diretor do Centro.

Artigo publicado na Revista Pós-Venda n.º 66 de março de 2021. Consulte aqui a edição.

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