A Da Luz Ibérica – Racing Parts, sediada em Guimarães, dedica-se à distribuição de componentes de performance automóvel e ao desenvolvimento de produtos da sua própria marca, DLR. Em entrevista, Vítor Silva, diretor da empresa, analisa o mercado português, as tendências na preparação de motores e transmissões, os desafios da distribuição e as oportunidades associadas aos automóveis desportivos clássicos.
Quais são as peças e componentes de performance automóvel mais procurados pelos vossos clientes e para que marcas, modelos e motorizações existe maior procura?
No nosso caso, a maior parte da procura está relacionada com a preparação de motores. Falamos de árvores de cames, pistões, bielas, bronzes de competição, válvulas, molas de válvulas e sistemas de admissão. A transmissão também tem um peso importante, sobretudo os diferenciais autoblocantes, caixas de velocidades reforçadas e embraiagens de competição. Trabalhamos bastante com motores Peugeot e Citroën, Renault, Volkswagen, BMW, Honda e diversas motorizações japonesas. Muitas destas aplicações já têm algumas décadas, mas continuam a ter procura, quer na competição, quer em projetos de preparação e recuperação de automóveis desportivos. Temos também apostado no desenvolvimento da nossa marca DLR, com uma gama que inclui pistões, válvulas, bielas, camisas de motor em fundição nodular, kits de admissão DCOE Billet e ITB, além de soluções de transmissão reforçada. São produtos fabricados com base nos nossos desenvolvimentos, especificações técnicas e critérios de qualidade. Não procuramos ter uma solução para todos os automóveis. Preferimos desenvolver produtos para aplicações que conhecemos e nas quais entendemos que podemos oferecer algo diferente.
Qual é o perfil dos vossos principais clientes e quais são os critérios que mais influenciam a compra?
Trabalhamos principalmente com oficinas especializadas, preparadores de motores e empresas ligadas à competição, embora também tenhamos clientes particulares que desenvolvem os seus próprios projetos. O preço é importante, naturalmente, e hoje qualquer cliente consegue comparar propostas de vários fornecedores europeus em poucos minutos. Mas quando estamos a falar de componentes internos de um motor de competição, acreditamos que a qualidade e a fiabilidade devem estar sempre em primeiro lugar. Há também uma questão que muitas vezes é esquecida: não basta comprar uma boa peça. É necessário escolher a referência correta e garantir que funciona com os restantes componentes do motor. Por vezes, uma peça mais barata acaba por sair bastante mais cara se obrigar a desmontar novamente um motor ou provocar uma avaria. É aqui que o conhecimento técnico e o acompanhamento ao cliente fazem a diferença.
Como selecionam as marcas e os produtos que comercializam e de que forma comprovam e garantem a qualidade, a segurança, a compatibilidade e o desempenho dos componentes vendidos?
Temos duas áreas de atividade que se complementam: a representação de fabricantes internacionais e o desenvolvimento de produtos da nossa marca DLR. Trabalhamos com fabricantes como CATCAMS, Wössner, ACL Race, King Racing Bearings, TTV Racing, 3MO Performance e TODA Racing, entre outros. São marcas especializadas, com experiência no desenvolvimento de componentes para motores e transmissões de elevado desempenho. A relação direta com os fabricantes é fundamental. Permite-nos esclarecer questões técnicas, confirmar aplicações e procurar soluções quando surgem problemas. Mas permite-nos também algo especialmente importante: desenvolver e mandar fabricar componentes à medida das necessidades dos nossos clientes, com características e especificações que muitas vezes não existem nos catálogos convencionais. Esta proximidade dá-nos capacidade para responder a projetos muito específicos, seja através de pistões ou bielas com características particulares, componentes de distribuição, camisas de motor ou soluções de transmissão adaptadas a determinada aplicação. Paralelamente, temos vindo a desenvolver a nossa própria gama DLR, que inclui pistões, válvulas, bielas, camisas de motor em fundição nodular, kits de admissão DCOE Billet, sistemas ITB e transmissões reforçadas. Não se trata simplesmente de escolher produtos num catálogo e colocar-lhes a nossa marca. São componentes desenvolvidos a partir das necessidades que identificamos no mercado, com especificações de fabrico e critérios de qualidade definidos por nós. Estudamos as aplicações, definimos as características que pretendemos e trabalhamos com unidades de produção especializadas para obter o produto final. É uma área em que queremos continuar a investir, porque acreditamos que uma empresa especializada não tem de se limitar a distribuir aquilo que os outros fabricam. Quanto à qualidade e à segurança, é essencial trabalhar com informação técnica fiável, verificar as características dos componentes e respeitar as recomendações de montagem. Nenhum fabricante, por melhor que seja, consegue compensar uma montagem incorreta ou uma combinação inadequada de peças.
Como avaliam o mercado português das peças de performance automóvel? A procura tem aumentado ou mudado nos últimos anos e que categorias de peças apresentam atualmente maior potencial de crescimento?
Portugal é um mercado pequeno, mas temos preparadores e oficinas com um nível técnico muito interessante. Alguns trabalham regularmente em projetos para clientes estrangeiros, o que demonstra que não nos falta capacidade. O que sentimos é que o mercado mudou bastante. Hoje os clientes têm acesso a muito mais informação e a praticamente qualquer fabricante, independentemente do país onde esteja instalado. Isso é positivo, mas também trouxe uma enorme concorrência pelo preço. Continuamos a verificar uma procura importante por componentes para motores mais antigos. Os Peugeot e Citroën desportivos, os Renault, os BMW e muitos modelos japoneses dos anos 80, 90 e 2000 continuam a ser preparados e utilizados em competição. São automóveis que, em muitos casos, já desapareceram dos catálogos de peças convencionais, mas continuam a ter uma comunidade muito ativa. Acreditamos que os componentes internos de motor, os sistemas de admissão e as transmissões reforçadas continuarão a ter procura. Também vemos oportunidades no desenvolvimento de peças específicas para aplicações mais antigas, onde a oferta dos grandes fabricantes nem sempre responde às necessidades atuais. É precisamente uma das razões pelas quais apostamos na DLR. O desenvolvimento de soluções próprias permite-nos responder a necessidades concretas, em vez de dependermos exclusivamente da oferta disponível nos catálogos internacionais.
Quais são os principais desafios deste negócio em Portugal, nomeadamente ao nível da concorrência das lojas online estrangeiras, produtos de qualidade duvidosa, disponibilidade de stock, apoio técnico às oficinas e legislação aplicável às alterações dos veículos?
A concorrência das grandes lojas online europeias é provavelmente um dos maiores desafios que enfrentamos. Hoje competimos diretamente com empresas que trabalham volumes muito superiores aos nossos, têm estruturas comerciais e logísticas de outra dimensão e conseguem realizar campanhas de preços bastante agressivas. O problema torna-se ainda mais evidente quando representamos um fabricante, investimos na divulgação dos seus produtos, prestamos assistência técnica aos clientes e depois encontramos os mesmos artigos à venda em plataformas estrangeiras, por vezes a preços inferiores às condições que conseguimos oferecer. Não estamos contra a concorrência. Faz parte do mercado. Mas consideramos que os fabricantes também têm responsabilidades na forma como organizam e apoiam as suas redes de distribuição. Outro problema é a quantidade de componentes de qualidade duvidosa que aparecem no mercado. Há produtos visualmente semelhantes aos de marcas reconhecidas, vendidos por uma fração do preço, mas sem informação suficiente sobre materiais, tolerâncias ou processos de fabrico. Num motor de competição, onde as solicitações mecânicas são muito elevadas, estas diferenças podem ter consequências sérias. A disponibilidade de stock também é complicada. Trabalhamos com milhares de referências, diferentes motores, medidas e configurações. Seria impossível manter tudo em armazém. Muitos produtos são fabricados especificamente para determinada aplicação e têm prazos de produção que o cliente precisa de compreender. Por último, temos a questão da legislação portuguesa sobre alterações de veículos. Existe interesse em melhorar motores, travões, suspensões e transmissões, mas nem sempre existe um processo de legalização simples e claro para as alterações destinadas a veículos que circulam na estrada. Há, no entanto, uma tendência que consideramos particularmente interessante: os chamados Restomods, projetos que combinam a recuperação de automóveis antigos com a introdução de soluções mecânicas e tecnológicas mais modernas. Acreditamos que esta tendência pode representar uma excelente oportunidade para repensar a legislação portuguesa. Muitos entusiastas não pretendem substituir o automóvel que possuem por outro mais recente. Querem continuar a usufruir dele, preservar a sua identidade e, ao mesmo tempo, melhorar o desempenho, a travagem, a segurança e a fiabilidade. Porque não criar condições legais para que estas alterações possam ser realizadas e homologadas, desde que respeitem critérios técnicos e de segurança bem definidos? Não se trata de permitir modificações sem regras, mas de reconhecer que um automóvel com várias décadas pode continuar a circular, devidamente atualizado, sem perder aquilo que o torna especial para o proprietário. Uma evolução neste sentido poderia beneficiar não só os entusiastas, mas também oficinas, preparadores, empresas de engenharia e fabricantes de componentes, criando novas oportunidades para o setor nacional. Portugal tem bons profissionais, empresas especializadas e uma enorme tradição ligada ao desporto automóvel. O que precisamos é de condições para que esse conhecimento continue a gerar atividade económica, investimento e novos produtos.















