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Personalidade do mês – Rodrigo Ferreira da Silva, ARAN: “O movimento associativo tem cada vez mais relevância se o mantivermos no seu estado mais puro”

3 Março, 2021
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A ARAN – Associação Nacional do Ramo Automóvel celebra 80 anos e tem como novo lema “rumo ao futuro”, que resume o novo posicionamento estratégico desta importante entidade, agora liderada por Rodrigo Ferreira da Silva.

ENTREVISTA PAULO HOMEM

Apesar de não ter conseguido comemorar como pretendia os seus primeiros 80 anos de existência, devido à pandemia de Covid-19, a ARAN tinha planeado para 2020 (e para os anos seguintes) um género de regresso às origens e à sua génese associativa, como forma de se posicionar melhor para os desafios futuros. Muito do que foi planeado, apesar de tudo, foi concretizado e mês após mês, a ARAN, agora tendo a Presidente Rodrigo Ferreira da Silva, mostra que tem um rumo e uma estratégia muito bem definida em prol do seu associado, que fica bem patente nesta entrevista.

Está na ARAN desde 2005. É desde maio de 2019 o Presidente da Direção ARAN. Quais foram as razões que o levaram a assumir este cargo? É uma passagem transitória?
Tudo é transitório na vida, considero que as pessoas não se devem eternizar nos cargos que ocupam. O meu objetivo e a minha motivação em assumir este cargo tem a ver com o entusiasmo por um setor que sempre trabalhei, mas também por considerar que os desafios que temos pela frente são muito maiores do que aqueles que acontecem nos últimos anos. Penso que geneticamente também estou ligado ao movimento associativo, já que o meu pai, nas suas empresas, sempre foi associado da ARAN e teve ligado a associações de concessionários. Eu vivi isso e desde muito novo que estou ligado a diversos movimentos associativos sociais e desportivos. Considero também que o movimento associativo tem cada vez mais relevância se o mantivermos no seu estado mais puro.

As associações deixaram de ser associações para serem empresas…
Acho que, de uma forma geral na sociedade, ocorreu uma adulteração do que deve ser uma associação. O meu objetivo é trazer de novo as raízes e a genética à ARAN. Hoje em dia uma associação que tem valer pela sua capacidade de gerar valor para o associado.

Portanto, qual é o grande desafio da ARAN neste momento?
Valorizar ao máximo a relação entre aquilo que um associado paga de quota e aquilo que ele tem como benefício. Acho que as associações vão ter uma papel muito importante no nosso setor e a prova disso mesmo foi o papel que a ARAN desempenhou durante todo o período do Covid-19.

2020 era um ano de mudança para a ARAN…
Sim, tínhamos algumas iniciativas previstas, que tiveram de ser adiadas, como era o caso da nossa conferência, que ficou agendada para dia 14 de maio de 2021. Os encontros que tínhamos previsto passaram a ser digitais, mas dinamizámos diversos protocolos e mudámos a nossa imagem. Tudo isto decorreu de um plano estratégico pensado ainda em 2019, fruto da nova direção da ARAN, que entendeu fazer uma revolução tranquila. Tínhamos que investir no futuro, daí o nosso lema “rumo ao futuro”, pois entendemos que havia uma série de desafios pela frente no nosso setor que se irão manter mesmo depois do Covid-19. Entendemos que existiam problemas pontuais e outros estruturais no setor, que têm a ver com os nossos associados, que nos levou a efetuar um plano estratégico a partir de um folha em branco. Esse plano estratégico foi desenvolvido a partir de setembro de 2019, que como é óbvio não previa a pandemia, mas esse planeamento estratégico acabou por estar perfeitamente alinhado com tudo o que veio à aconctecer

No fundo, quais são as linhas orientadoras dessa nova estratégia que a ARAN
implementou?
Convém começar por dizer que a ARAN é uma associação com 80 anos, de utilidade pública e sem fins lucrativos. Por outro lado, deve-se dizer também aquilo que nós não somos e não somos uma empresa. É óbvio que temos que criar valor para remunerar os nossos profissionais e os nossos projetos, temos que ter objetivos, para cada um saber para que fim está a trabalhar. A nossa ótica é criar valor à quota do associado. Posto isto, entendemos estrategicamente que existem quatro serviços fundamentais que a ARAN desenvolve para os seus associados e nos quais nos focamos e este tempo que atravessamos mostrou o sucesso da nossa aposta. Em primeiro lugar, o departamento jurídico. Por exemplo, no período do Covid-19 mudaram 88 vezes as leis laborais, segundo uma notícia do Jornal Público. O papel do nosso departamento jurídico foi fundamental durante este período no apoio que demos aos nossos associados. Dou outro exemplo: nas novas regras do acesso ao lay-off, existia uma falha do Governo ao não considerar que quem teve mais de 30 dias de lay-off mas não correspondia a um mês civil, o trabalhador não tinha direito a esse apoio. É um assunto que o nosso departamento jurídico trabalhou muito bem e a lei foi alterada. Muitos dos nossos associados foram beneficiados com esta alteração. O segundo pilar é a higiene e a segurança no trabalho. Foi um serviço que a ARAN tinha externalizado no passado, mas que agora trabalhamos dentro da associação. Conseguimos, neste período de pandemia, fornecer aos nossos associados máscaras (e outros produtos), que não havia em nenhum lado, ao preço de custo e suportando ainda os portes de envio. Foi um departamento que arranjou soluções rápidas para os associados. A infelicidade do Covid-19 neste caso veio-nos provar que estávamos certos na nossa estratégia de apostar nesta área. Queria também referir o dístico de “Empresa Segura”, que este departamento desenvolveu, estando agora a fazer auditorias junto do associados. Em terceiro lugar, o nosso departamento ambiental. Reforçamos já este ano a nossa equipa com mais um elemento, apoiando os nossosassociados trabalhando diretamente com o departamento jurídico. Diria até que o  ambiente é a profilaxia para depois não haver a multa no jurídico, quer isto dizer, que reduzimos trabalho no jurídico por via do bom trabalho desenvolvido pelo departamento ambiental…. e todos nós sabemos o valor das multas neste setor!!! O quarto pilar é o da formação. Tínhamos previsto reorganizar esta área que acabou por ter novos desafios com o Covid-19. Rapidamente ajustámos a nossa formação ao online e dinamizámos diversos webinar´s relevantes para os nossos diferentes tipos de associados. Dou também outro exemplo: uma das bandeiras da ARAN tem a ver com o cliente ser livre de escolher a sua oficina de colisão no caso de não ter culpa no acidente. Fizemos agora uma novo poster informativo e formativo com um género de ficha técnica, que inclui os decretos-lei, onde todos podem ficar a saber os direitos do consumidor. Vamos terminar esta sequência com uma formação online em com a participação da DECO e do CASA, sobre este assunto, para os nossos associados.

A formação é fundamental, nomeadamente dentro do setor oficinal…
Entendemos a formação a dois níveis distintos. Por um lado o CEPRA, que eu considero uma escola de excelência na reparação automóvel, que temos que acarinhar e adaptá-la cada vez mais às novas exigências. O histórico do CEPRA é na reparação automóvel, mas no nosso entender queremos que o CEPRA possa vir a ser uma escola do setor automóvel e não apenas da reparação automóvel. Penso que o CEPRA está a caminhar nesse sentido. O segundo nível é a formação interna como falei anteriormente. Aliás, investimos também num novo responsável de formação e olhamos para esta nossa formação como complementar à formação que o CEPRA garante. O nosso objetivo e o do CEPRA é garantir que todos tenham acesso à formação, com custos controlados para que uma pequena organização possa ter acesso, e que a mesma possa ser uma mais valia para a sua atividade.

A mudança de imagem da ARAN personifica
esta nova atitude da associação?
Todos esses quatro pilares de quem falei acabam por estar juntos através de uma “cola” comum que é o departamento de marketing. De nada vale ter boas ideias e bons projetos se depois não os soubermos comunicar convenientemente aos nossos associados e potenciais associados. A nossa nova imagem marca não só os 80 anos da ARAN mas também o nosso posicionamento com o lema “rumo ao futuro”, incluindo esta forma integrada de trabalhar para os associados. Gostava ainda de dizer que tudo isto é também possível porque as anteriores direções deixaram a ARAN com uma excelente estabilidade financeira. Por exemplo, isso permitiu-nos suspender as quotas dos nossos associados durante o tempo do Covid-19, mantendo todos os nossos departamentos em funcionamento ao serviço dos associados.

Para além das tradicionais bandeiras da ARAN (economia paralela, concorrência desleal, carga fiscal, etc.), quais são as “novas” bandeiras da associação, tendo em conta até o momento em que vivemos?
A ARAN escreveu em agosto uma carta a António Costa, que sabemos que já foi remetida para o ministério das Finanças e da Economia, que são, no fundo, as nossas cinco grandes bandeiras para o relançamento do setor automóvel em geral. São também medidas necessárias para resolver problemas que já existiam antes do Covid-19 e que não desapareceram com a pandemia, sendo que alguns desses problemas se agravaram agora e têm que ser desenvolvidas medidas para relançar o setor de modo a atenuar o desemprego, os despedimentos, a quebra nas receitas fiscais e o encerramento de empresas. A primeira bandeira passa pela criação de uma medida de redução de 50% do valor global do ISV na matriculação de veículos, até um limite máximo de redução de 2.500 euros. A referida medida teria carácter excecional para todos os veículos novos importados ou fabricados em Portugal no ano 2000 e que se encontrem ainda em stock. Esta medida tem como vantagens o aumento da tesouraria das empresas, por outro lado apoia a renovação do parque automóvel e atenua ainda o impacto da quebra da receita fiscal (ISV e IVA). Outra medida que enviámos ao governo foi a criação de um registo profissional
de revendedores de veículos automóveis usados. Entendemos que para poder haver uma suspensão da tributação do IUC, entre o período que medeia a aquisição e a revenda, deve haver um registo do profissional. Esta medida teria um impacto na tesouraria das empresas, no combate à evasão fiscal, evita-se as vendas simuladas pois existia um registo do profissional, e passaria a existir uma base de dados fidedigna referente aos carros usados. Uma terceira bandeira, que toca muito o setor da manutenção automóvel e que permitiria combater a evasão fiscal e reduzir a economia paralela, passa pelo aumentar a dedução que o particular tem em sede de IRS, do IVA suportado com as despesas de manutenção e reparação de veículos, dos atuais 15% para os 30%, até final de 2021. Esta medida é também um estímulo à recuperação da atividade. Pedimos também, sendo esta a quarta bandeira, a exclusão, em sede de tributação autónoma, dos encargos suportados pelas empresas com manutenção e reparação de automóveis. Entendemos que o automóvel já é muito penalizado no ato da sua compra e que não deverá continuar a ser muito penalizado durante a sua utilização. Mais uma vez, esta medida apoia a tesouraria das empresas, promove a justiça fiscal e promove ainda a segurança rodoviária. Uma última bandeira são os incentivos que têm que existir à renovação do parque automóvel. Nesse sentido propomos a criação do incentivo ao abate de veículos com mais idade, mas que a renovação não seja feita apenas para veículos novos mas também para veículos semi-novos até dois anos. As vantagens são evidentes, pois isso contribui para a renovação do parque, para a economia verde, para a prevenção rodoviária, etc.

São cinco medidas exequíveis, como é óbvio, mas considera que o Governo as vai levar em consideração?
Eu entendo claramente que sim, pois todas as medidas trazem benefícios para o Estado, seja de forma direta ou não, sendo todas elas realistas. Por outro lado, o Governo tem que entender que se quiser relançar o setor é preciso fazer um sacrifício. É melhor o Estado ir buscar impostos a 80% de alguma coisa que a 100% de nada!!! Se o Governo não apostar nestas e noutras medidas, irá ter que pagar uma fatura muito maior.

Com o Covid-19, pela primeira vez ARAN, ACAP e ANECRA, tomaram uma medida “histórica” conjunta que resultou no protocolo sanitário para o setor automóvel…
Devo realçar precisamente o excelente entendimento que houve entre estas três associações, na pessoa do Alexandre Ferreira e do Hélder Pedro, sem esquecer o importante papel da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal e ainda a posição do Secretário de Estado do Comércio, João Torres. Em tempo recorde conseguimos fazer um bom protocolo sanitário para entregar ao governo e à DGS.

Não seria bom estas três associações apresentarem em conjunto as suas medidas de recuperação do setor em vez de cada uma individualmente?
Logicamente que a ARAN está totalmente disponível para participar em alguma concertação, pois existem interesses que são comuns. É certo que cada associação tem características distintivas, e tudo aquilo que não choque contra os nossos valores, que falei ao início desta entrevista, nós estamos disponíveis para avançar com as outras associações.

Existe algum objetivo claro de fazer crescer a vossa base de associados, que é atualmente de 2.300 entidades?
Em primeiro lugar devo dizer que os 2.300 associados da ARAN têm as suas quotas em dia. De facto, não temos neste momento nenhum objetivo declarado de fazer crescer esse número. Entendemos que o crescimento do número de associados será uma consequência do nosso bom trabalho. Como disse antes, nós queremos criar valor para os nossos associados. Também temos que analisar se no futuro vai haver mais ou menos operadores. Achamos que irá haver menos operadores e a concentração de empresas é cada vez maior e, por isso, a nossa base de crescimento será menor no futuro.

A ARAN tem vindo a dinamizar uma série de protocolos com diferentes entidades. São protocolos de real interesse para os associados?
Atualmente os nossos protocolos são feitos de uma outra forma. Dinamizamos protocolos com a Sixt, AON, GT Motive, Xerox-GPrint, Unilabs, Polivalor e outros se irão seguir, por exemplo na área dos lubrificantes e das tintas, em que o que dizemos às empresas é que não queremos nada para a ARAN, mas que todos os benefícios são totalmente em prol do associado, nomeadamente os de pequena dimensão.

A vossa associação chegou a dinamizar um conceito oficinal. Pretende retomar essa ideia?
Não pretendemos dinamizar nenhum conceito oficinal. Como disse, nós queremos voltar a ser uma entidade moderna, atual e virada para o futuro, mas não desvirtuando aquilo que deve ser uma associação. Não queremos estar na mão de nenhuma empresa ou patrocinador entrando em questões comerciais, porque nós não queremos ser uma empresa comercial, mas sim estar ao serviço dos nossos associados.

Que números é que a ARAN tem sobre o impacto do Covid-19 no setor do pós-venda?
Fizemos um inquérito de pós-venda que teve mais de 1500 respostas. As conclusões mostraram que as pequenas empresas foram mais resilientes, assim como as oficinas de colisão. Contudo, houve um dado que nos deixa muito preocupados e que foi impulado pelo Covid-19, que é a posição das seguradoras com as peritagens caseiras. Pode parecer mais seguro uma peritagem em casa do cliente que na oficina e isso pode ser muito perigoso, pois está a lesar a posição do consumidor e a tirar negócio da oficina e pode, de uma forma não propositada, estimular a economia paralela. Este será seguramente um assunto que nos próximos meses vamos estar muito atentos.

Perguntas rápidas
Qual foi o seu primeiro carro?
Foi um Mitsubishi Pajero… branco!
Quantos quilómetros faz por ano?
50.000 quilómetros por ano.
O que mais gosta no sector automóvel?
Gosto muito do futuro do setor.
E o que menos gosta?
As mudanças que ainda não se conseguiram fazer.
É importante ir ao terreno visitar o mercado?
Não há outra maneira. Tudo começa e acaba no associado.
O que gosta de fazer nos tempos livres / quando não está a falar de assuntos associativos?
Gosto de ir ver o FC Porto, sou apaixonado por ténis e sou um enófilo.

Perfil
O atual Presidente da Direção da ARAN, Rodrigo Ferreira da Silva, tem mais de 15 anos de atividade dentro desta associação, mas a sua ligação aos automóveis vem desde o berço, por via familiar. Tem, por isso, um gosto particular pelo retalho automóvel, trabalhando em diversas empresas, tendo ainda passado pela consultoria automóvel. Atualmente tem parcerias e interesses noutras áreas de negócio que não o automóvel, tendo feito pelo meio diversos cursos e pós-graduações (Gestão, Marketing, Finanças, etc).

Artigo publicado na Revista Pós-Venda n.º 60 de setembro de 2020. Consulte aqui a edição.

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