O mercado europeu de automóveis usados entrou em 2026 numa fase de transição, marcada por sinais de normalização após vários anos de forte pressão sobre a oferta e preços elevados, de acordo com o mais recente relatório do Observatório Indicata.
O relatório aponta para um aumento do número de veículos disponíveis no mercado secundário, acompanhado por uma crescente pressão sobre os preços de retalho, num contexto mais competitivo para os operadores.
A recuperação da oferta, impulsionada pela retoma dos registos de automóveis novos ao longo de 2025, está a permitir o regresso de mais viaturas ao mercado de usados, sobretudo provenientes de frotas. Esta dinâmica está a contribuir para uma desaceleração da subida dos preços e para um reajustamento progressivo dos valores residuais em vários mercados europeus.
O aumento dos níveis de stock tem vindo a evidenciar uma relação mais directa com os preços e os tempos de venda. Quando a oferta cresce mais rapidamente do que a procura, o indicador Market Days Supply aumenta, obrigando os retalhistas a ajustarem os preços para garantir a rotação dos veículos. Este mecanismo começa agora a travar a escalada dos preços observada no período pós-pandemia.
Os veículos com motor de combustão continuam a desempenhar um papel central no mercado, mantendo uma circulação mais eficiente e sustentada por uma procura estável e custos de utilização previsíveis. No entanto, a maior disponibilidade destes modelos já começa a exercer uma ligeira pressão descendente sobre os preços.
Nos veículos electrificados, o cenário mantém-se mais volátil. Os eléctricos a bateria e os híbridos plug-in estão a chegar ao mercado de usados em maior número, o que tem contribuído para um aumento do tempo médio em stock. Os valores residuais destes modelos revelam maior sensibilidade a variações súbitas da oferta e à concorrência de preços no mercado de novos, embora com sinais de estabilização à medida que a acessibilidade melhora.
Apesar do ajustamento em curso, os preços de retalho dos usados na Europa permanecem, em média, 3,0% acima dos níveis de janeiro de 2020, excluindo a Turquia. Espanha, Itália e Alemanha apresentam as maiores valorizações acumuladas, enquanto países como Suécia, Dinamarca e Finlândia já registam valores inferiores aos de referência. Portugal apresenta uma variação de +1,7%.
O relatório destaca também o crescente peso dos veículos com dois a quatro anos, impulsionado pelo regresso de viaturas provenientes de contratos de leasing e de frotas empresariais. Este segmento tem vindo a responder à procura por automóveis mais recentes a preços mais competitivos face aos novos.
Em Portugal, a tendência acompanha o cenário europeu. Entre os modelos mais vendidos até quatro anos destacam-se Peugeot 2008, Peugeot 208 e Citroën C3. Já ao nível da rotação de stock, o Hyundai Kauai lidera, seguido do Tesla Model 3 e do Seat Ateca.
O Indicata sublinha que a principal incógnita para os próximos meses será a capacidade do mercado para absorver o aumento da oferta. O ritmo de reequilíbrio dos stocks será determinante para a evolução dos preços, podendo manter o ajustamento moderado ou acentuar-se em determinados segmentos. “A crescente presença de marcas chinesas, através de canais tácticos como demonstração, rent-a-car de curta duração e subscrição, poderá acelerar essa pressão concorrencial, sobretudo no universo eléctrico”, afirmou Yoann Taitz.















