O Encontro Nacional do Comércio de Automóveis Usados 2026, organizado pela Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel (ANECRA), em Coimbra, evidenciou um setor em profunda transformação, impulsionado pela digitalização, pela inteligência artificial e pela crescente profissionalização dos operadores do mercado de usados.
O evento, subordinado ao tema “Setor Automóvel – Rumo a um Futuro Mais Inteligente”, reuniu representantes de marketplaces, financeiras, concessionários, operadores independentes e especialistas do setor para discutir os principais desafios e oportunidades que irão moldar o futuro da atividade. Na abertura do encontro, Roberto Gaspar, secretário-geral da ANECRA, apresentou dados de conjuntura que demonstram a dinâmica do mercado automóvel em Portugal.
Destacou o crescimento contínuo das vendas de usados importados, que poderão ultrapassar em mais de 20% os valores registados em 2025, ano em que foram matriculados cerca de 117 mil veículos importados usados. Paralelamente, o mercado de veículos novos poderá atingir em 2026 cerca de 235 mil matrículas.
Para Roberto Gaspar, esta evolução reforça a necessidade de o setor continuar a investir em inovação, digitalização e adaptação às novas exigências dos consumidores. Um dos painéis centrais do encontro foi dedicado ao papel dos marketplaces no ecossistema dos usados. Pedro Pinheiro Gonçalves, moderador da sessão, destacou que a transformação digital está a alterar profundamente a jornada de compra automóvel. Se anteriormente o processo começava no ponto de venda, hoje inicia-se sobretudo online, através de pesquisas, comparações, recomendações e interações digitais. Segundo o responsável, os consumidores estão cada vez mais dependentes de sistemas inteligentes e algoritmos que influenciam diretamente a decisão de compra.
A inteligência artificial foi apontada como um dos principais motores desta mudança. Ferramentas conversacionais, motores de recomendação e sistemas de pesquisa inteligentes estão a transformar a forma como os consumidores procuram automóveis, substituindo progressivamente as tradicionais listas de anúncios por experiências mais personalizadas e contextualizadas. Neste novo paradigma, fatores como confiança, reputação online e posicionamento digital assumem um peso crescente na capacidade de atração de clientes.
Apesar da crescente influência dos marketplaces, os participantes defenderam que a experiência humana continua a desempenhar um papel decisivo na concretização da venda. Pedro Menezes Soares, do Standvirtual, salientou que os marketplaces influenciam fortemente a jornada do cliente, mas a experiência final de compra e entrega continua dependente da qualidade do serviço prestado pelos operadores.
Já Miguel Mendes, da Carmine, sublinhou que o grande desafio do setor passa por proporcionar uma experiência integrada, rápida e personalizada ao consumidor, recorrendo à tecnologia sem perder a componente humana da relação comercial. Outro dos temas em destaque foi o financiamento automóvel e o impacto da nova diretiva europeia do crédito ao consumo. O painel reuniu representantes de várias instituições financeiras, que manifestaram preocupação relativamente à futura transposição da legislação para Portugal.
As principais dúvidas prendem-se com a forma como serão reguladas as comissões associadas ao crédito, o aumento das exigências de fiscalização e a necessidade de adaptação operacional das empresas. Ainda assim, os intervenientes reconheceram que uma maior transparência e informação ao consumidor poderá contribuir para reforçar a confiança no financiamento automóvel.
O debate revelou igualmente preocupação com os custos e a complexidade que a nova regulamentação poderá trazer para concessionários, intermediários de crédito e operadores independentes. Foram apontadas necessidades acrescidas de formação, atualização tecnológica e reforço das responsabilidades técnicas das equipas. Apesar das incertezas, prevaleceu a ideia de que o mercado conseguirá adaptar-se gradualmente às novas regras, desde que exista diálogo entre reguladores, financeiras e operadores do setor.
Na sessão dedicada às tendências de mercado, Marta Espadeiro, do Standvirtual, apresentou dados que revelam um crescimento da procura por veículos elétricos, enquanto os modelos a combustão registam uma diminuição gradual nas pesquisas online. Esta tendência demonstra que os hábitos de consumo estão a mudar rapidamente, obrigando o setor automóvel a acelerar a sua adaptação tecnológica e comercial. Ao longo de todo o encontro, ficou evidente que o setor dos automóveis usados enfrenta um período de transformação estrutural, marcado pela digitalização, pela inteligência artificial, pelas novas exigências regulatórias e pela mudança de comportamento dos consumidores.
Os participantes defenderam que o sucesso futuro dependerá da capacidade das empresas em investir em tecnologia, formação, qualidade de serviço e adaptação contínua a um mercado cada vez mais competitivo e digital.





























