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O tempo não corre a favor das oficinas

18 Junho, 2026

O Instituto de Emprego e Formação Portugal organizou, nas suas instalações no Porto, as Jornadas Técnicas de Inovação, focadas nas áreas da mecatrónica automóvel, digitalização e sustentabilidade.

A eletrificação, a digitalização, o acesso à informação técnica, a inteligência artificial e a necessidade de novos métodos de diagnóstico estiveram no centro do debate “O Futuro da Mecatrónica Automóvel”, que juntou representantes da formação, da comunicação especializada e da operação de frotas nas Jornadas Técnicas de Inovoação, que decorrem no IEFP no Porto. A principal conclusão foi que a tecnologia está a mudar mais depressa do que a capacidade de adaptação de muitas oficinas e profissionais.

A transformação tecnológica do setor automóvel deixou de ser uma tendência futura para passar a ser uma realidade diária nas oficinas, nas empresas de transporte, nos centros de formação e em toda a cadeia de valor da reparação e manutenção automóvel. Software, sensores, conectividade, sistemas ADAS, eletrificação, inteligência artificial, Big Data e manutenção preditiva fazem hoje parte de um novo vocabulário técnico que está a redefinir o perfil dos profissionais e a forma como se intervém num veículo.

Foi este o ponto de partida do painel “O Futuro da Mecatrónica Automóvel”, moderado por Ricardo Pinto, da Academia Ser Caetano – Formação de Jovens, que reuniu Bruno Passeira, da STCP, Paulo Homem, diretor da revista Pós-Venda, e Jorge Zózimo, da T. Academy. A conversa cruzou diferentes perspetivas, desde a realidade das oficinas independentes, aos desafios da formação técnica, à operação de frotas pesadas eletrificadas e ao impacto da inteligência artificial no setor.

Logo na abertura, Ricardo Pinto enquadrou o tema como uma questão central para a sustentabilidade futura do setor automóvel. A mecatrónica, referiu, já não pode ser vista apenas como a combinação entre mecânica e eletrónica. Hoje envolve software embarcado, atualizações, sistemas de assistência à condução, sensores, conectividade e análise de dados. A questão deixada à reflexão foi direta: estarão os profissionais a ser preparados para os desafios atuais ou para desafios que ainda nem sequer são totalmente conhecidos?

O tempo é o primeiro grande desafio das oficinas

Para Paulo Homem, o primeiro desafio das oficinas é o tempo. A evolução tecnológica está a acontecer a uma velocidade tal que muitas empresas ainda estão a ponderar investimentos em informação, formação e equipamentos quando o mercado já avançou para outro patamar.

Na sua análise, a nova geração de veículos obriga as oficinas a repensarem profundamente a sua atividade. A mecânica tradicional continua a ser importante, mas já não é suficiente. Eletrónica, eletricidade, física, software e capacidade de interpretação técnica passaram a ser competências essenciais, mesmo nos veículos de combustão, que integram cada vez mais tecnologia embarcada.

Outro ponto considerado crítico foi o acesso à informação. Para Paulo Homem, a palavra-chave é precisamente “informação”. Sem dados técnicos atualizados, sem procedimentos corretos e sem acesso a plataformas de apoio, torna-se cada vez mais difícil diagnosticar, reparar e prestar um serviço competente ao cliente. O responsável da Pós-Venda alertou ainda para o facto de o acesso à informação estar cada vez mais condicionado pelas marcas, o que obriga muitas oficinas a integrarem redes, grupos ou estruturas que lhes permitam chegar mais facilmente a esses conteúdos técnicos.

Formação tem de ensinar a pensar

Jorge Zózimo, da T. Academy, reforçou que a formação técnica tem de acompanhar a rapidez da evolução tecnológica, mas defendeu que isso só é possível se forem abandonados modelos demasiado tradicionais de ensino. Na sua perspetiva, não basta colocar equipamentos, máquinas de diagnóstico, dados técnicos ou plataformas digitais à disposição dos profissionais. É necessário ensinar os técnicos a pensar, a interpretar e a seguir métodos de diagnóstico produtivos.

O responsável sublinhou que muitas dificuldades não resultam da falta de tecnologia, mas da falta de método. Um técnico pode ter acesso a todos os dados da viatura e, ainda assim, não conseguir resolver o problema se não souber estruturar o raciocínio. Por isso, defendeu uma formação mais prática, mais próxima da realidade das empresas e complementada por apoio técnico personalizado.

Neste novo contexto, a formação deixa de ser apenas um momento em sala ou oficina pedagógica e passa a prolongar-se para o local de trabalho. O técnico, perante uma avaria concreta, poderá necessitar de apoio imediato, consultoria remota e orientação especializada. O objetivo final, sublinhou Jorge Zózimo, é simples: permitir que as oficinas sejam mais produtivas, façam bem à primeira e consigam ganhar dinheiro com o seu trabalho técnico.

Eletrificação traz desafios de infraestrutura, carregamento e baterias

A perspetiva da operação de frotas foi trazida por Bruno Passeira, da STCP, que explicou os desafios associados à transição energética numa empresa de transporte público. No caso da eletrificação de uma frota de autocarros, os problemas começam muito antes da manutenção do veículo propriamente dita.

O primeiro obstáculo está nas infraestruturas. A eletrificação exige obras, projetos, licenciamento, postos de transformação, equipamentos de carga, espaço físico e adaptação das instalações. A isto junta-se a logística dos carregamentos, uma vez que não é possível ligar todos os veículos em simultâneo sem uma gestão rigorosa da potência disponível e dos horários de carregamento.

Bruno Passeira destacou ainda o papel do software na gestão da carga, embora tenha alertado para a falta de uniformização dos protocolos de comunicação entre veículos, carregadores e sistemas de gestão. Outro desafio central é a bateria. A gestão da garantia, a degradação da autonomia e a necessidade de assegurar que a vida útil da bateria acompanha a vida útil do veículo são fatores decisivos numa frota pesada eletrificada.

Segundo o responsável, estes desafios obrigam a uma nova abordagem técnica, logística e financeira. No transporte público, a eletrificação não é apenas substituir diesel por eletricidade: é reorganizar infraestruturas, processos, manutenção e operação.

Poderá ler mais conteúdos sobre estas jornadas na próxima edição da PÓS-VENDA.

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