O Observatório Indicata revela que o mercado europeu de veículos usados apresenta sinais de estabilização face ao período homólogo, embora permaneça longe de um equilíbrio estrutural.
A desaceleração das correcções de preço e a manutenção de uma procura activa têm permitido absorver parte significativa da oferta, ao mesmo tempo que os veículos eléctricos a bateria registam maior interesse, impulsionado pelo aumento dos custos dos combustíveis. Ainda assim, persistem fragilidades associadas a níveis elevados de stock, rotação desigual e incerteza nos valores residuais.
A análise da edição 74 do Observatório Indicata aponta para um mercado menos volátil, mas condicionado por factores contraditórios. A procura continua dinâmica, porém já não sustentada pela pressão inflacionista que anteriormente elevava os preços dos usados devido à escassez de veículos novos. Os compradores demonstram maior prudência, privilegiando previsibilidade, acessibilidade e facilidade de revenda, num contexto em que o mercado regressa a fundamentos tradicionais como o stock disponível, o Market Days Supply e a capacidade real de absorção pelo retalho.
O indicador Market Days Supply evidencia diferenças entre procura e oferta, sobretudo quando o aumento do stock prolonga o tempo médio de permanência dos veículos, expondo-os a ajustamentos de preço. Esta pressão varia entre países e motorizações, refletindo a diversidade fiscal e regulatória europeia, mas tende a penalizar segmentos com maior volume disponível e menor rotação, especialmente nas motorizações electrificadas.
Os veículos a gasolina e gasóleo continuam a assegurar a liquidez do mercado, sustentados por preços de entrada mais acessíveis, previsibilidade de utilização e confiança na revenda. O diesel mantém relevância em utilizações de elevada quilometragem e em mercados onde a fiscalidade favorece esta opção. Para os operadores de remarketing, estas motorizações continuam a servir de referência na avaliação do stock e da estabilidade dos valores residuais.
Já os veículos electrificados, incluindo BEV e PHEV, registam maior presença, mas continuam dependentes do preço e da confiança dos consumidores. As dúvidas relativas à autonomia, estado das baterias e evolução tecnológica, bem como a concorrência de veículos novos com descontos, limitam a sua rotação. O aumento dos preços dos combustíveis contribuiu para uma maior atractividade, mas é interpretado como um factor conjuntural e não estrutural.
Os preços mostram uma normalização desigual entre países. Face a Janeiro de 2020, o índice médio ponderado apresenta uma variação residual de +0,2%. Espanha lidera com +10,8%, seguida de Itália com +10,0%, Polónia com +9,4%, Alemanha com +6,8% e Reino Unido com +4,2%. Portugal regista +1,5%, posicionando-se acima da média europeia excluindo a Turquia, mas já num cenário de estabilização. Em contraste, Dinamarca, Suíça e Finlândia apresentam quedas significativas, com -8,9%, -11,9% e -13,3%, respectivamente.
Nos veículos com menos de quatro anos, o Volkswagen T-Roc lidera em volume com um Market Days Supply de 56,5 dias, seguido pelo Volkswagen Golf com 68,4 dias e pelo Peugeot 208 com 52,8 dias. Contudo, na velocidade de rotação destacam-se o Tesla Model 3 com 27,9 dias, o Tesla Model Y com 29,4 dias e o Polestar 2 com 31,7 dias, evidenciando diferenças entre volume de vendas e rapidez de escoamento.
Em Portugal, o mercado acompanha a tendência europeia de estabilização, embora com menor intensidade nas correcções. A procura mantém-se activa, mas a velocidade de venda está cada vez mais dependente do preço, favorecendo veículos com propostas claras de utilização e menor incerteza de revenda.
A evolução do mercado deverá continuar marcada pela disciplina de preço e pela protecção dos valores residuais. Os veículos de combustão interna mantêm vantagem devido à profundidade da procura, enquanto os electrificados permanecem mais expostos a mudanças de políticas públicas e à concorrência do mercado de novos. A gestão do stock, a idade dos veículos e o posicionamento de preço serão determinantes para a preservação das margens.
“Depois de um período de forte distorção, o mercado europeu de usados está a regressar a uma lógica mais disciplinada, em que cada veículo tem de justificar o seu preço pela procura real, pela velocidade de rotação e pela confiança no valor futuro. O crescimento dos BEV é relevante, mas ainda não substitui a profundidade de liquidez que os motores de combustão continuam a oferecer ao retalho”, afirmou Yoann Taitz, responsável regional de previsão de valores residuais e especialista de mercado.
















